Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 01
Capítulo 01: O Som do Vidro Quebrado
O mormaço de Aracaju colava a seda da blusa à pele de Antonella, uma umidade que nem o ar condicionado do ateliê conseguia vencer. Ela girou a chave, ouvindo o estalo seco do metal. O silêncio da rua era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido distante de um gerador. No chão, a luz amarelada do poste falhando desenhava formas incertas sobre os vitrais que ela passara o dia a polir.
A mão dela desceu à bolsa de couro, os dedos encontrando o frasco familiar. Ela não precisava ler o rótulo escrito à mão por Dona Malva. Aquelas cápsulas eram o seu único escudo contra as garras da ansiedade que, todas as noites, ameaçavam rasgar o peito. Antonella engoliu o composto seco, sentindo o amargo residual na garganta. Era o ritual necessário para que a mente não colapsasse, para que as memórias de uma vida que ela tentara enterrar em solo brasileiro permanecessem caladas.
Um reflexo metálico no final do bloco fê-la parar. Um SUV preto, parado, com o motor a roncar baixo como um animal à espera. Antonella apertou o passo, o som dos seus saltos no asfalto soando como batidas de um tambor num corredor vazio.
— Fugir não combina contigo, Antonella. Ou devo dizer... Giulia?
A voz veio das sombras, rouca e carregada de um sotaque que ela não ouvia há anos. Dante Moretti deu um passo à frente, saindo da obscuridade do poste queimado. Ele não vestia os ternos impecáveis de antigamente; apenas uma camisa preta que evidenciava os ombros largos e o coldre velado na cintura.
— Não devias estar aqui, Dante — respondeu ela, o coração a martelar contra as costelas, desafiando o efeito do calmante natural.
— Eu estou onde o perigo está. E o teu disfarce, Giulia, acabou de virar fumo. — Ele estendeu um envelope lacrado, os olhos gélidos fixos nela. — Entra no carro. Agora.
Antonella recuou, as costas batendo na vitrine de vidro do seu ateliê. Antes que pudesse negar, o som de pneus cantando ecoou pela rua. Dois faróis altos surgiram na esquina oposta, acelerando com uma fúria cega. Dante não esperou. Ele envolveu a cintura de Antonella com um braço de aço, puxando-a para trás do pilar de betão no exato momento em que a primeira rajada de metralhadora estraçalhou a vitrine.
O som do vidro quebrado foi ensurdecedor, uma chuva de cristais que se misturou ao cheiro de pólvora e terra molhada. O mundo que ela construiu com tanto esforço estava a desfazer-se em estilhaços no asfalto.
— Entra no SUV! — rugiu Dante, sacando a pistola enquanto a rua se transformava num campo de guerra.

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