Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 02
Capítulo 02: Pneus e Traição
Antonella foi arremessada contra o banco de couro quando o SUV blindado arrancou. O som dos tiros abafados pelos vidros grossos batia na lataria como pedras de granizo. Dante girou o volante com força, os pneus cantando no asfalto áspero enquanto o carro derrapava e invadia a avenida principal.
O cheiro metálico de pólvora queimada empesteou a cabine fechada. Antonella ofegou, as unhas cravando no estofado com tanta força que as pontas dos dedos ficaram brancas. As luzes dos Arcos da Orla de Atalaia passavam como borrões amarelados pela janela. O mar revolto da madrugada quebrava na areia, mas o som era engolido pelo ronco brutal do motor V8.
— Eles não vão parar, Giulia — a voz de Dante cortou o escuro, fria e mecânica. Ele não tirava os olhos do retrovisor.
— Meu nome é Antonella! — O grito rasgou a garganta dela. As mãos tremiam tanto que ela mal conseguia abrir o zíper da bolsa. O pânico subia pelo pescoço, estrangulando a respiração. Ela tateou no escuro, procurando o pequeno frasco de cápsulas naturais de Dona Malva. Aquela mistura fitoterápica potente, focada em despencar os níveis de cortisol e frear a insônia, era a única barreira física entre ela e um colapso cardíaco total.
— Você pode tomar quantos frascos quiser disso — Dante virou o rosto na direção dela por uma fração de segundo. A iluminação fraca do painel destacou um corte no supercílio dele, o sangue fresco descendo pela têmpora em contraste com a pele levemente bronzeada. — Mas ervas não param balas de fuzil calibre 7.62.
— Como eles me acharam, Dante? Cinco anos. Eu não deixei rastro. Não movimentei dinheiro do passado, não fiz contatos. Eu construí uma vida do zero!
Dante freou bruscamente, jogando o veículo numa rua lateral estreita, longe da avenida iluminada. Ele desligou os faróis. O silêncio que invadiu o carro foi imediato e denso. Ele soltou o volante e virou o corpo maciço na direção dela.
— Você não deixou rastro. Mas o seu querido sócio, sim.
Antonella parou de respirar. O ar frio do ar-condicionado de repente pareceu navalhas cortando a sua pele.
— O quê? O Vincenzo? — Ela balançou a cabeça de forma ríspida. — Não. Ele é o meu fornecedor. Ele me ajudou a montar o ateliê. Ele estava lá quando eu não tinha nada.
— Ele vendeu a sua localização por quinhentos mil euros, Giulia. A família não precisou procurar. Ele entregou a planta do seu comércio, os seus horários e a sua rotina com um laço vermelho.
O estômago dela revirou de forma violenta. O homem com quem ela dividiu cafés, planilhas de negócios e a confiança nos últimos três anos era o Judas que havia guiado o diabo até a sua porta.
— Para onde estamos indo? — a voz dela saiu baixa, perigosa. O terror congelante começava a dar lugar a uma raiva quente, fervendo nas veias.
— Para o único lugar onde eles não esperam que um fantasma se esconda.

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