Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 03
Capítulo 03: Santuário de Ervas e Medo
O pneu do SUV esmagou o cascalho do quintal e o motor finalmente calou. Dante desligou tudo, afundando a cabine numa escuridão quase absoluta. A casa ficava nos arredores da Zona de Expansão de Aracaju, isolada por um muro alto coberto de trepadeiras. Era o único porto seguro que Antonella conhecia.
— Sai do carro. Rápido — comandou Dante, já com a mão na maçaneta e a arma destravada apontada para a rua deserta.
Antonella empurrou a porta, mas as pernas cederam no momento em que a ponta do sapato tocou a terra úmida. O asfalto pareceu girar. O ar não chegava aos pulmões. A adrenalina do tiroteio baixou de uma vez, e o cérebro dela cobrou o preço por cinco anos de vigília constante. Ela caiu de joelhos, as unhas rasgando a terra, tentando desesperadamente puxar o ar, mas a garganta estava fechada.
Uma luz amarela e quente cortou a escuridão da varanda. A porta de madeira maciça abriu-se de supetão.
— Tira ela do chão, italiano! — a voz firme, que não admitia réplicas, ecoou pelo quintal. Dona Malva, aos 78 anos, não se curvava diante da idade nem diante de homens armados. Vestia um xale de lã sobre os ombros e já segurava um copo de vidro grosso nas mãos. O cheiro forte de alecrim e capim-limão invadiu o ar noturno.
Dante guardou a arma no cós da calça, pegou Antonella pelos braços com uma facilidade brutal e a carregou para dentro do santuário. A sala era forrada de estantes pesadas, livros antigos de naturopatia e frascos de vidro translúcido com ervas secas. Ele a depositou no sofá de couro encerado.
— Antonella, olha para mim — pediu Dona Malva, ajoelhando-se com uma agilidade impressionante. O suor frio escorria pelo pescoço da mais jovem. A visão dela estava afunilando, os músculos do peito repuxando como cordas de aço a ponto de arrebentar.
— Eu... não consigo... — o sussurro de Antonella foi um fio de voz engasgado.
Dona Malva não perdeu tempo com afagos inúteis. Ela abriu um frasco de vidro escuro sobre a mesa de centro. Extraiu duas cápsulas do seu composto mais potente, desenvolvido meticulosamente para esmagar crises agudas de ansiedade e induzir o sistema nervoso a um estado de descompressão forçada.
— Engole isso agora. Sem água, mastiga se for preciso — ordenou a matriarca, empurrando as cápsulas entre os lábios trêmulos de Antonella. — O seu cortisol está fritando as suas sinapses. Deixe as plantas fazerem o trabalho que a sua cabeça não consegue fazer.
O gosto forte e terroso invadiu a boca de Antonella. Ela engoliu com dificuldade. Dante observava a cena encostado no batente da porta, os músculos rígidos, vigiando a rua pelas frestas da janela.
Cinco minutos pareceram horas. Lentamente, a frequência cardíaca de Antonella começou a desacelerar. O composto rasgou a névoa de pânico químico que dominava o cérebro dela. O peito parou de queimar. Ela afundou a cabeça no encosto do sofá, puxando a primeira respiração profunda e limpa da noite.
— Você é teimosa, menina. Achou que podia fugir da sua própria sombra — Dona Malva murmurou, recolhendo o copo.
Antes que Antonella pudesse responder, Dante se afastou da janela e jogou um objeto preto sobre a mesa de centro de madeira. Era um celular descartável, grosso e sujo de sangue seco. O aparelho que ele havia tirado do informante no tiroteio.
A tela do aparelho acendeu, iluminando a sala à meia-luz. Alguém estava ligando.
Dante olhou para Antonella, os olhos azuis frios como gelo.
— Vincenzo está querendo saber se o serviço foi feito — disse ele, a voz baixa e letal. — Você atende, ou eu atendo?

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