Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 04
Capítulo 04: Sangue Frio, Suor Quente
O celular descartável vibrava sobre a madeira bruta da mesa, zumbindo como um inseto doente. Dante estendeu a mão grande em direção ao aparelho, mas os dedos de Antonella foram mais rápidos. Ela pegou o telefone manchado de sangue seco e atendeu, sem dizer uma única palavra. O silêncio na linha era pesado.
— Luigi? — A voz do outro lado era sussurrada, nervosa. Era Vincenzo. — O serviço está feito? Vocês apagaram a italiana?
Antonella prendeu a respiração. Ouvir o próprio sócio encomendando o seu assassinato com a frieza de quem pede uma pizza fez o estômago dela revirar. Mas o pânico sufocante de antes não veio. Graças à intervenção de Dona Malva e ao efeito anestésico das cápsulas naturais, o seu ritmo cardíaco manteve-se estável. O medo absoluto tinha derretido, deixando para trás apenas uma raiva afiada e cirúrgica.
Ela desligou na cara de Vincenzo e jogou o aparelho no colo de Dante.
— Ele acha que os atiradores mataram você — constatou Dante, os olhos azuis analisando a expressão endurecida dela.
— Fantasmas têm a vantagem do primeiro ataque. — Antonella virou as costas e caminhou em direção aos fundos da casa.
Duas horas depois, a madrugada de Aracaju ainda estava escura e abafada. Na varanda coberta do quintal, o som abafado de couro batendo contra couro ditava o ritmo. Pá. Pá-pá. Antonella golpeava o saco de pancadas de lona pesada que mantinha pendurado numa viga. O suor encharcava o top de ginástica, escorrendo pelas costas e misturando-se à fita preta que envolvia os seus nós dos dedos já esfolados.
Ela treinava não para manter a forma, mas para queimar a escória mental. Cada soco no saco de areia era o rosto de Vincenzo. Cada chute lateral que fazia a viga de madeira ranger era a lembrança de Giulia, a assassina que ela jurou enterrar na Itália, forçando a tampa do caixão para sair.
A poucos metros dali, sentado num banco de madeira, Dante desmontava a arma do mercenário morto com a mesma facilidade com que alguém descasca uma fruta. A luz fraca do poste da rua desenhava sombras duras no maxilar dele.
— A ligação do Vincenzo não partiu do seu ateliê — disse Dante, quebrando o ritmo dos golpes dela. Ele não precisou levantar a voz. — Eu rastreei o sinal do último retransmissor. O número está fixado na torre do Distrito Industrial de Nossa Senhora do Socorro.
Antonella parou o saco de pancadas com o antebraço. A respiração dela saía pesada, rasgando o silêncio do quintal. O suor pingava do seu queixo no chão de cimento grosso.
— O nosso galpão de estoque — murmurou ela, limpando a testa com as costas da mão enfaixada. — É onde guardamos as chapas de vidro temperado que vêm de São Paulo. Ele deve estar escondido lá, esperando os italianos irem cobrar o pagamento.
Dante empurrou o carregador para dentro da pistola com um clique metálico e seco. Ele se levantou, a figura maciça bloqueando a pouca luz que vinha do quintal.
— Então nós vamos pagar a dívida do Vincenzo. Com juros.

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