O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 03

Capítulo 03: A Sentença

O som do sinal de ocupado apitando no telefone pendurado pelo fio parecia o alarme de uma bomba-relógio detonando dentro da cabeça de Lívia. Ela continuou encarando a parede de tijolos descascados, os olhos vidrados, a respiração presa na garganta. O ar do ateliê de repente ficou rarefeito, pesado demais para ser inalado. O chão sob seus pés parecia ter derretido.

Vicente não perguntou o que havia acontecido. O instinto predatório dele leu o pânico absoluto na postura rígida dela. Em dois passos rápidos, ele cruzou a sala, pegou o gancho do telefone que balançava no ar e bateu o aparelho com força no gancho amarelo, matando o bipe irritante.

— O que foi? — a voz dele cortou o silêncio, baixa, exigindo uma resposta imediata. — Quem estava na linha?

Lívia engoliu a seco, mas não havia saliva. Sua garganta arranhava. Ela virou o rosto devagar para encará-lo. A imagem do herdeiro bilionário, com o terno amassado e o cabelo despenteado dentro do seu minúsculo espaço de trabalho, pareceu subitamente uma piada de mau gosto. Uma anomalia que estava destruindo a gravidade da sua vida.

— A sua mãe. — A voz de Lívia saiu oca, destituída de emoção, como se o cérebro dela tivesse entrado em modo de segurança para não colapsar. — Foi o dono do prédio. A sua mãe comprou este imóvel. Pagou à vista, no meio da madrugada. Quebrou todos os contratos de locação.

O rosto de Vicente endureceu. A confusão inicial deu lugar a um entendimento sombrio e violento. A mandíbula dele travou, os músculos do pescoço repuxando sob a pele.

— O despejo é às seis da manhã — Lívia continuou, as palavras saindo no automático, enquanto o tremor voltava a tomar conta das suas mãos. — Ela contratou caminhões de caçamba. Eles vêm jogar as minhas coisas no lixo. A minha máquina de costura, os meus tecidos... a minha vida, Vicente. Ela vai triturar a minha vida em menos de cinco horas.

Vicente praguejou um palavrão sujo entredentes. Ele enfiou a mão no bolso da calça de alfaiataria, sacando o próprio celular. A tela iluminou o rosto afiado dele na penumbra. Ele discou um número com a rapidez de quem está acostumado a apagar incêndios com gasolina.

— Atende, inferno — ele murmurou, andando de um lado para o outro na sala estreita. Quando a chamada conectou, ele não deu bom dia. — Roberto, acorda o juiz de plantão agora. Eu não quero saber se ele está dormindo, manda o helicóptero buscar o cara se for preciso. Minha mãe acabou de fazer uma compra imobiliária irregular por fora da holding para forçar um despejo no centro da cidade. Quero uma liminar travando a posse do prédio antes do amanhecer. Se você não conseguir essa liminar, não precisa nem aparecer no escritório amanhã.

Ele desligou na cara do advogado e guardou o celular, virando-se para Lívia com a mesma urgência blindada de antes.

— Arruma uma bolsa com o que você precisa para passar a noite — Vicente ordenou, caminhando na direção dela, o tom não admitindo recusas. — Você vai sair daqui agora. Eu vou te levar para o meu apartamento, e de manhã o Roberto já vai ter resolvido esse circo da Carmem. O ateliê fica.

Lívia recuou um passo, batendo as costas contra a mesa de corte. A ordem dele não soou como proteção. Soou como posse. O choque inicial que a paralisara começava a se dissipar, abrindo espaço para uma fúria incandescente que queimou o frio do seu estômago.

— Resolver? — Ela soltou uma risada curta, quebrada e sem humor. — Você acha que isso é um problema jurídico, Vicente? Você acha que a sua mãe ligou para leis ou liminares quando jogou dinheiro na cara do dono do prédio de madrugada? O alvo não é o imóvel. O alvo sou eu.

Ele parou a menos de um metro de distância, a sombra dele engolindo a luz fraca da lâmpada amarela.

— E é exatamente por isso que eu vou tirar você da linha de tiro — ele rebateu, a paciência encurtando. — Eu não vou deixar ela encostar em um alfinete desse lugar. Mas você não vai ficar aqui para assistir. Pega as suas coisas.

— Eu não vou a lugar nenhum com você! — Lívia explodiu, a voz rasgando a garganta. Ela empurrou o peito duro dele com as duas mãos, gastando o resto da energia que tinha, mas ele mal se moveu. — Você não entende? Foi você que trouxe ela para cá! Se você não tivesse feito aquele teatro ridículo no hotel, se não tivesse esfregado a minha cara na alta sociedade de São Paulo para medir forças com a sua própria mãe, eu estaria em paz! Pobre, endividada, mas em paz!

Vicente não recuou. Os olhos dele escureceram, absorvendo a agressão dela sem piscar.

— Eu disse que te protegeria — ele respondeu, a voz perigosamente baixa, rouca. — Eu assumo a responsabilidade pela retaliação dela. Mas eu não recuo, Lívia. Eu já te disse isso hoje. Eu. Não. Recuo.

— Pois eu sim. — Lívia apontou para a porta da rua, o dedo tremendo. — Vai embora, Vicente. Vai resolver a sua guerra familiar no seu mundo de vidro. Me deixa lidar com os escombros do meu.

Eles se encararam em um silêncio violento. A tensão no ar era grossa o suficiente para ser cortada com uma tesoura de alfaiate. Vicente analisou o rosto suado, manchado de maquiagem e exausto dela. Ele travou o maxilar, sabendo que forçá-la fisicamente a sair dali só quebraria o resto de confiança que não existia entre eles.

— Eu volto antes de o sol nascer — ele decretou, virando as costas. Ele caminhou até a porta, mas antes de sair, olhou sobre o ombro. — Não abra a porta para ninguém que não seja eu.

A porta bateu. O motor da SUV blindada roncou alto na rua e os pneus cantaram no asfalto, sumindo na distância.

Sozinha, o silêncio ensurdecedor do ateliê desabou sobre ela. Lívia olhou para o relógio na parede. Uma e quarenta da manhã. Ela não tinha tempo para chorar. Não tinha tempo para desmoronar.

Com movimentos mecânicos e desesperados, ela foi até o armário dos fundos e puxou um rolo de sacos de lixo preto reforçados de cem litros. Ela abriu o primeiro saco e começou a jogar tudo dentro. O tecido de seda crua que custou o lucro de um mês inteiro. As bobinas de linha. Os cadernos de croquis. O barulho do plástico amassando era a trilha sonora do seu fracasso.

As horas se arrastaram como vidro moído. Lívia suava frio, os músculos dos braços queimando enquanto desmontava peças e esvaziava gavetas. Ela não sabia para onde levaria aquilo. Não tinha dinheiro para um caminhão de mudança, não tinha para onde ir. Mas preferia arrastar aqueles sacos pelas calçadas do centro de São Paulo do que dar a Carmem o prazer de jogar seu trabalho em uma caçamba de entulho.

Às 5:45 da manhã, o céu começou a clarear, pintando o asfalto lá fora com um tom azulado, frio e melancólico. Lívia estava sentada no chão, encostada na perna de ferro de sua velha máquina Singer, abraçando os joelhos. Suas mãos estavam sujas de poeira e graxa. Havia oito sacos pretos enormes empilhados no meio da sala vazia.

Foi então que o chão tremeu.

O ronco de motores pesados a diesel quebrou a quietude do amanhecer. Uma luz amarela e intermitente varreu a fachada do ateliê, atravessando a janela suja e projetando sombras em movimento na parede. O som de freios a ar vazando foi alto e agressivo. Os caminhões de caçamba haviam chegado.

Lívia levantou do chão, as pernas dormentes formigando. Ela ajeitou a camisa de flanela amassada sobre o corpo. Seu estômago deu um salto mortal quando ouviu o barulho de saltos finos e implacáveis batendo contra a calçada.

A maçaneta da porta girou, e a madeira foi empurrada sem cerimônia.

Carmem Albuquerque entrou no ateliê. O contraste era grotesco. A matriarca usava um sobretudo de lã batida creme, impecável, com luvas de couro negro nas mãos e óculos escuros de grife empurrados para o topo da cabeça, segurando o cabelo perfeitamente escovado. Atrás dela, dois homens com a postura rígida de ex-militares e ternos pretos pararam na porta, bloqueando a saída.

A mulher olhou ao redor, o nariz franzindo visivelmente diante do cheiro de poeira e suor que impregnava o ar. O olhar dela passou pelas paredes manchadas, pela fiação exposta e, finalmente, parou nos sacos de lixo amontoados no centro.

— Pelo visto, os ratos reconhecem rapidamente a hora de abandonar o navio — Carmem disse, a voz suave, polida e carregada de lâminas afiadas. Ela tirou as luvas de couro, dedo por dedo, com uma lentidão calculada. — Facilita o trabalho dos peões lá fora. Eles cobram hora extra a partir das seis da manhã.

Lívia engoliu a bile que subiu à garganta. Ela manteve o queixo erguido, recusando-se a encolher os ombros.

— Você não precisava vir até aqui para isso — Lívia respondeu, a voz saindo mais firme do que ela esperava. — O dono do prédio já me avisou. Os advogados do seu filho também já devem estar cientes. Você comprou uma guerra com o Vicente por causa de um imóvel inútil.

Carmem soltou uma risada nasalada. Uma risada de quem acha compaixão algo digno de pena.

— Guerra com o meu filho? Garota, você é mais ignorante do que eu imaginava. Vicente e eu brigamos pelos mesmos cem milhões de reais a cada balanço trimestral. Você não é um motivo de guerra. Você é um mosquito que entrou pela janela do meu escritório. E eu estou aqui apenas para fechar a janela.

Carmem caminhou pelo espaço vazio, parando diante da mesa de corte, a única mobília grande que havia sobrado no centro da sala. Ela abriu a bolsa estruturada de marca francesa e tirou de lá um envelope longo e branco. Com um movimento cirúrgico, jogou o envelope sobre a madeira gasta.

— O que é isso? — Lívia estreitou os olhos, sem dar um passo na direção da mesa.

— É a sua passagem para fora da estratosfera da minha família — Carmem respondeu, o tom prático, como se negociasse a compra de uma máquina de café. — Tem um cheque administrativo nesse envelope, nominal a você. Quinhentos mil reais. É mais dinheiro do que o seu histórico familiar inteiro gerou em quatro gerações.

O coração de Lívia falhou uma batida. Meio milhão. A palavra girou na mente dela. Era a quitação de todas as suas dívidas. Era um ateliê novo em um bairro de verdade. Era a paz, embalada em papel e tinta.

— Você pega esse envelope, enfia nesses sacos de lixo junto com as suas roupas baratas e some de São Paulo — Carmem continuou, os olhos mortos fixos em Lívia. — Mude de número. Mude de nome se preferir. Se você atender uma única ligação do meu filho, se você responder a uma mensagem de texto dele, eu congelo o dinheiro antes que ele bata na sua conta e garanto que você não consiga alugar nem um quarto de pensão nesta cidade pelo resto da sua vida. Fui clara?

Lívia olhou para o envelope. A tentação era instintiva. O desespero da sobrevivência gritava para que ela pegasse o papel e corresse. Mas ao olhar para Carmem, ao ver a postura vitoriosa, o sorrisinho de canto no rosto da mulher rica que a tratava como esgoto, uma fúria silenciosa sobrepujou o medo. Pegar aquele dinheiro era aceitar o rótulo. Era assinar o recibo de que ela era a mercenária oportunista que Carmem jurava que ela era.

E pior: era vender a própria dignidade para a mulher que a havia destruído.

Lívia caminhou devagar até a mesa de corte. Sentiu o olhar de Carmem acompanhá-la com a satisfação antecipada da vitória. Lívia estendeu a mão suja de poeira e pegou o envelope limpo. O papel era pesado, texturizado.

Ela olhou para Carmem diretamente nos olhos.

As mãos de Lívia se fecharam nas bordas do envelope. Com um movimento brusco e violento, ela rasgou o papel grosso ao meio. O som do rasgo soou como um tiro no ateliê silencioso.

O sorriso no rosto de Carmem morreu instantaneamente.

Lívia juntou os dois pedaços e rasgou novamente, transformando o meio milhão de reais em quatro pedaços irregulares. Depois em oito. Ela abriu a mão e deixou os pedaços de papel picotado caírem sobre o tampo de madeira, escorregando para o chão sujo.

— Pega os caminhões lá fora e enfia nesse seu casaco de grife — Lívia cuspiu as palavras, o peito subindo e descendo em fúria pura, os olhos castanhos queimando de ódio. — Eu posso sair daqui sem um puto no bolso. Mas você não tem dinheiro suficiente no mundo para comprar o direito de cuspir na minha cara.

O silêncio que se seguiu foi absoluto e aterrorizante. Carmem encarou os pedaços de papel no chão. O rosto da matriarca não demonstrou raiva, não demonstrou surpresa. A máscara de cera retornou, fria, calculista e absolutamente letal.

Carmem ergueu os olhos lentamente para Lívia. A voz soou como o assobio de uma lâmina no escuro.

— Que pena. Você acaba de assinar a sua sentença.


🗣️ Você perdoaria a ousadia de Lívia ou teria aceitado os quinhentos mil? Carmem vai cobrar esse rasgo com juros. Qual será o próximo passo da megera? Comente abaixo!

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