O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 02
Capítulo 02: A Fuga e a Caça
O som da chave enferrujada arranhando a fechadura soou alto demais no corredor vazio do prédio comercial. Lívia forçou o metal com as duas mãos, os dedos tremendo de forma tão incontrolável que ela deixou o chaveiro cair duas vezes no piso de cimento queimado. Quando a porta de madeira gasta finalmente cedeu, ela se jogou para dentro do ateliê e bateu a porta com o peso das próprias costas. O estrondo reverberou pelas paredes apertadas, sacudindo as tesouras penduradas no painel de ferramentas.
Ela girou o trinco. Passou a corrente. E então, as pernas falharam.
Lívia escorregou pela porta até bater no chão de taco de madeira. O impacto mandou um choque surdo pela base da coluna, mas a dor física era um alívio comparada ao inferno que estava acontecendo em sua cabeça. O oxigênio queimava sua garganta como lixa. Ela puxou o ar, tentando encher os pulmões, mas o vestido alugado agia como uma camisa de força, esmagando suas costelas. O zíper nas costas a sufocava.
Em um ataque de pânico e frustração, ela levou as mãos para trás e puxou o tecido com violência. O barulho da costura barata cedendo e do zíper rasgando ecoou no ateliê silencioso. Ela não se importou em perder o dinheiro da caução da loja. Apenas arrancou aquela casca preta de cima de si, empurrando o tecido para os joelhos e chutando-o para longe como se estivesse em chamas. Ficou apenas com as peças íntimas de algodão desbotado, o suor gelado colando os cabelos na nuca.
A escuridão do ateliê era sua única amiga agora. O cheiro de poeira, tecido velho e óleo de máquina de costura aterrissou seus sentidos. Aquele era o seu mundo. Um espaço minúsculo, alugado a duras penas, com goteiras no teto e manequins sem cabeça, mas era seguro. Não havia flashes de câmeras. Não havia engravatados rindo por suas costas. Não havia a voz peçonhenta de Carmem Albuquerque dissecando seus defeitos em praça pública.
Mas as palavras da matriarca ainda pingavam na sua mente como ácido de bateria. *Um truque barato. Distração de quinta categoria. Quadril largo. Cheiro de desespero.*
Lívia engatinhou pelo chão frio até alcançar a borda da mesa de corte, puxando o próprio peso para cima com os braços trêmulos. Ela tateou a parede no escuro até encontrar o interruptor. A luz amarelada e fraca da lâmpada fluorescente piscou duas vezes antes de iluminar o canto dos fundos, onde um espelho de corpo inteiro, manchado nas bordas, repousava inclinado contra a parede de tijolos descascados.
Ela parou de frente para o vidro. A respiração ofegante fez seus ombros subirem e descerem descompassados. A maquiagem que ela havia levado uma hora para fazer estava destruída, borrada de suor e lágrimas secas, criando sombras fundas sob seus olhos castanhos. Mas não foi o rosto que prendeu sua atenção. Foi o corpo.
O corpo que ela tentava esconder debaixo de roupas folgadas de brechó. O quadril que Carmem fez questão de expor como um defeito de nascença. A barriga que marcava no vestido apertado. Lívia cruzou os braços sobre o estômago nu, cavando as unhas na própria pele até machucar, odiando a si mesma por ter acreditado, nem que fosse por uma fração de segundo, que Vicente poderia ver beleza ali. O bilionário vivia cercado por modelos de capa de revista, herdeiras com lipoaspiração e peles de porcelana. Achar que ele a olharia com desejo real era a prova definitiva de que ela havia perdido a sanidade.
Ela precisava assumir o controle. Precisava calar aquela voz na cabeça que concordava com Carmem. Com movimentos duros e automáticos, Lívia foi até a pequena pia de fibra no canto do ateliê. Abriu a torneira, deixando a água fria correr. Suas mãos alcançaram a prateleira torta acima da pia e agarraram o pequeno frasco escuro que ela mantinha escondido ali. Tirou a tampa com o polegar. Despejou uma única cápsula na palma da mão suada. O suplemento para emagrecimento não era sobre estética barata, não ali, não naquela noite. Era sobre calar o barulho. Era um pacto silencioso de que ela mudaria as regras do próprio jogo, de que blindaria aquele corpo até que ninguém, muito menos uma velha rica, pudesse usá-lo como arma contra ela. Lívia jogou a cápsula na boca e engoliu com um gole direto da torneira, sentindo a água gelada descer rasgando, levando o desespero junto. O ato mecânico trouxe um alívio químico, uma promessa tátil de que amanhã ela acordaria mais forte, mais no controle de sua própria pele.
Lívia apoiou a testa na beirada da pia gelada, fechando os olhos enquanto a pulsação nos seus ouvidos começava a desacelerar. Ela só precisava colocar uma roupa limpa, trancar a porta, deitar no pequeno sofá no fundo da sala e fingir que aquela noite nunca aconteceu. Amanhã, Vicente acordaria, a fumaça daquele anúncio insano de noivado baixaria, e ele perceberia o erro colossal que tinha cometido.
Foi quando o barulho de pneus cantando cortou o silêncio da rua lá fora.
O som áspero de borracha contra o asfalto foi seguido pela freada violenta de um motor pesado. O farol alto de um carro varreu a janela da frente do ateliê, lançando sombras monstruosas dos manequins contra a parede.
O coração de Lívia parou. Ela arregalou os olhos para a rua. A silhueta de uma SUV preta blindada estava estacionada de qualquer jeito em cima da calçada, bloqueando a porta.
Passos pesados. Rápidos. Implacáveis.
O som de um soco brutal contra a porta de madeira fez Lívia pular para trás, batendo as costas na prateleira de tecidos.
— Lívia! — O barítono de Vicente atravessou a madeira como se ela fosse feita de papel. A voz dele estava distorcida por uma raiva selvagem. — Abre essa porra dessa porta. Agora.
Ela prendeu a respiração. O pânico voltou com o dobro da força. Ela olhou para si mesma, de calcinha e sutiã, tremendo no meio da sala. Correu para o cabideiro mais próximo e arrancou uma camisa de flanela masculina e gasta que usava para pintar as paredes. Vestiu a peça às pressas, abotoando os botões de forma torta enquanto a maçaneta da porta de entrada chacoalhava violentamente.
— Vai embora! — Lívia gritou, a voz esganiçada arranhando a garganta. — O show acabou, Vicente! Volta pro seu hotel! Me deixa em paz!
O silêncio do outro lado durou exatos três segundos.
— Se você não girar a chave em três segundos, eu vou colocar essa porta abaixo com o meu ombro — ele avisou. O tom não era um grito. Era calmo, baixo e absolutamente letal. — Um.
Ela recuou mais um passo. As pernas bambas.
— Dois.
O som do ombro dele batendo contra a porta fez a madeira estalar com força, lascando o batente. A corrente balançou.
— Tá bom! Tá bom! — Lívia avançou tropeçando nos próprios pés e tirou a corrente, girando a fechadura.
Antes que ela pudesse puxar a maçaneta, a porta foi empurrada para dentro com um solavanco brutal. A força do impacto fez Lívia cambalear para trás, batendo a panturrilha na quina da mesa de corte.
Vicente entrou.
O ateliê, que já era pequeno, pareceu encolher até virar uma caixa de fósforos. A gravata borboleta do smoking dele estava desfeita, pendurada no colarinho aberto. O cabelo, sempre perfeitamente alinhado, estava bagunçado, como se ele tivesse passado as mãos pelos fios várias vezes. Os olhos escuros e ferozes varreram o espaço até travarem nela. O peito largo dele subia e descia em uma respiração pesada. O cheiro de vento noturno, asfalto e couro quente invadiu o ambiente, engolindo o cheiro de mofo do lugar.
Ele não esperou. Em duas passadas largas, Vicente cruzou o espaço entre eles. Lívia tentou correr para o lado, mas ele foi mais rápido. Ele bateu as duas mãos na borda da mesa de corte, prendendo-a contra a madeira. Ela ficou encurralada entre o corpo maciço dele e a mesa atrás de suas costas.
A proximidade era sufocante. O calor que irradiava do corpo dele bateu no rosto dela. Ela tentou empurrar o peito dele, mas Vicente não moveu um milímetro. Ele era uma parede de concreto armado.
— Ficou maluca? — O hálito quente dele bateu contra a pele sensível do pescoço dela. — Você sai correndo no meio de São Paulo de noite, a pé? Eu dirigi quebrando todos os sinais vermelhos dessa avenida para te alcançar. Você perdeu o juízo, Lívia?
A preocupação distorcida em fúria nos olhos dele acendeu um pavio dentro dela. A submissão que Lívia demonstrou no hotel evaporou, dando lugar à raiva pura, nascida da humilhação.
— Eu fiquei maluca? — ela devolveu, a voz explodindo, empurrando o peito dele com as duas mãos fechadas em punhos, batendo no músculo duro sob a camisa branca sem causar impacto nenhum. — Você passou recibo de louco lá dentro! Você destruiu a minha vida! Noiva? Do que você estava falando? Você me jogou na roda para os fotógrafos só para peitar a sua mãe!
Vicente travou a mandíbula. Ele soltou a borda da mesa, agarrando os dois pulsos de Lívia com uma mão só, parando a agressão inútil dela. O aperto não machucava, mas a força bruta era incontestável. Ele puxou as mãos dela para baixo, colando o corpo dele no dela. A camisa de flanela não era proteção suficiente. Lívia sentiu a dureza do quadril dele contra o dela, e a respiração falhou miseravelmente.
— Você acha que eu estava brincando? — Ele sussurrou, o rosto abaixando até ficar a centímetros do dela. O escuro nos olhos dele era um poço sem fundo. — Você acha que eu blefaria com o meu próprio conselho de administração por um jogo de ego com a Carmem?
Lívia tentou virar o rosto, tentando fugir do campo gravitacional que ele exercia, mas Vicente soltou os pulsos dela e segurou seu maxilar. Os dedos grossos e quentes dele agarraram o rosto dela com uma firmeza possessiva, obrigando-a a olhar diretamente para ele.
— Ouve com atenção, porque eu não vou repetir, Lívia. — A voz dele desceu uma oitava, roçando contra a pele dela. — Eu não dou um passo em falso. Aquele noivado é real. Se eles queriam sangue, eu dei um casamento. E a partir de hoje, você não anda sozinha. Você não mora nesse buraco. E você nunca mais vira as costas para mim quando eu estiver te defendendo.
A temperatura da sala subiu vertiginosamente. O formigamento no estômago de Lívia desceu para um lugar perigoso. A intensidade de Vicente era letal, inebriando o senso de perigo dela. Ele estava perigosamente perto da boca dela. Ela engoliu a seco, os lábios entreabertos, a resistência desmoronando sob o peso daquele olhar.
— Vicente... você não pode me comprar assim — ela murmurou, a voz rouca, vacilante. — A sua mãe... ela vai me triturar. Você viu o que ela fez. Ela vai me tirar tudo.
O polegar dele esfregou o lábio inferior dela de forma instintiva e lenta.
— Ela não pode encostar um dedo em você agora. Você é minha. Acostume-se com isso.
Lívia fechou os olhos. A atração repulsiva e doentia que sentia por aquele homem estava prestes a quebrar todas as suas barreiras. Ele inclinou a cabeça, a respiração batendo nos lábios dela.
O som metálico e estridente cortou o ar como um machado.
O telefone fixo do ateliê — um aparelho amarelo e encardido preso na parede — começou a tocar de forma ensurdecedora.
O susto fez Lívia dar um pulo. Vicente travou no lugar, a respiração pesada, os olhos fuzilando o aparelho na parede como se quisesse colocar fogo no plástico com o olhar. O telefone continuou berrando. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Ninguém ligava para o ateliê uma da manhã. Ninguém.
Ela empurrou o peito dele, deslizando pela beirada da mesa de corte, as mãos suando frio. Caminhou devagar até a parede. Seu estômago deu um nó górdio. Ela puxou o gancho velho do aparelho e levou ao ouvido, a mão tremendo.
— A... alô? — a voz dela saiu um fiapo.
Do outro lado, a voz do Sr. Armando, o velho dono do prédio comercial onde ela alugava a sala, soou trêmula e rasgada de nervosismo.
— *Dona Lívia? Me perdoa ligar essa hora da madrugada. Me perdoa mesmo, eu juro que tentei segurar até amanhã...*
— Seu Armando? O que aconteceu? O senhor está passando mal? — Ela olhou para Vicente, que mantinha os braços cruzados e a postura rígida no centro do ateliê.
— *Não, filha. É o prédio.* — O velho respirou fundo, o som de papéis amassando ao fundo. — *O prédio foi vendido hoje de noite. Coisa de louco, pagaram o triplo do valor à vista, nem tive como recusar.*
A espinha de Lívia congelou. Um frio cortante começou a subir pelas solas dos pés.
— Vendido? Como assim, vendido? E o meu contrato?
O velho Armando hesitou. O silêncio do outro lado da linha tinha o som do apocalipse.
— *A nova proprietária mandou o advogado dela bater aqui em casa agora pouco, Lívia. Uma tal de Carmem Albuquerque. Ela quebrou todos os contratos. Pagou as multas de rescisão à vista. E mandou avisar que...* — ele engoliu a seco — *... que a ordem de despejo da sua sala é para amanhã, às seis da manhã. Os caminhões de caçamba já estão contratados para esvaziar o que tiver aí dentro e jogar no lixo se você não tirar antes.*
O telefone escorregou da mão de Lívia e bateu contra a parede, pendurado pelo fio espiralado. O sinal de ocupado começou a apitar freneticamente na sala silenciosa.
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