O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 05

Capítulo 05: Fogo Cruzado

O cheiro de asfalto quente e borracha queimada invadiu o nariz de Lívia, misturando-se à poeira da escadaria da igreja. A porta blindada do SUV preto bateu com um estampido seco, ecoando na rua deserta de Santa Cecília. Vicente parou na base dos degraus, os olhos escuros fixos nela com a intensidade de um predador que acaba de encurralar a presa que fugiu do abate.

Ele não usava mais o paletó de grife da noite anterior. A camisa branca estava com os dois primeiros botões abertos, as mangas dobradas até o cotovelo revelando os antebraços tensos. A postura dele bloqueava qualquer rota de fuga que Lívia pudesse sequer imaginar.

— Você acha que eu estou brincando? — A voz de Vicente cortou o ar da manhã, grave e carregada de uma raiva controlada. Ele subiu o primeiro degrau. — Você arruma as suas coisas de madrugada, desaparece do radar e acha que vai pegar um ônibus intermunicipal e sumir no mapa?

Lívia apertou a alça da bolsa contra o peito, recuando um passo por instinto, os calcanhares batendo no último degrau de pedra. As pernas dela tremiam de exaustão física e mental, mas o ódio que sentia era um combustível inflamável.

— A sua mãe jogou a minha vida em uma caçamba de lixo hoje de manhã, Vicente! — Ela gritou, a voz rasgando a garganta, ignorando os poucos pedestres que passavam na calçada oposta. — Ela rasgou os meus contratos, destruiu o meu ateliê e me ofereceu meio milhão de reais para nunca mais olhar na sua cara! Eu disse para você me deixar fora da sua guerra particular, mas você me jogou na linha de frente!

Vicente subiu o resto dos degraus em duas passadas largas. Antes que Lívia pudesse virar as costas para tentar correr para dentro da paróquia, ele agarrou o braço dela. O aperto não machucou, mas a firmeza era absoluta. Ele a puxou para perto, anulando a distância entre os dois. O calor do corpo dele irradiou contra o dela, sufocando o ar frio da rua.

— A minha mãe acabou de assinar a própria ruína — Vicente disse baixo, o rosto a poucos centímetros do dela, o hálito quente com cheiro de café expresso e pura adrenalina batendo no rosto de Lívia. — Enquanto você chorava pelo ateliê, eu estava no telefone com o conselho financeiro. Eu acabei de congelar todas as contas matrizes da Carmem. Todos os cartões platinum, os fundos de liquidez diária, os repasses de dividendos. Tudo. Ela não consegue comprar um pão na padaria neste exato segundo sem pedir a minha autorização por escrito.

O choque anestesiou a raiva de Lívia por uma fração de segundo. Ela arregalou os olhos. Vicente, o filho perfeito, o CEO blindado, tinha acabado de asfixiar financeiramente a própria mãe. Ele havia detonado uma bomba nuclear no coração do império Albuquerque. Por ela.

— Você enlouqueceu de vez — ela sussurrou, a garganta seca. — Ela vai triturar nós dois.

— Ela vai tentar. E é por isso que você não vai para o interior tentar a sorte como uma fugitiva. A rodoviária do Tietê tem reconhecimento facial, Lívia. Em dez minutos a equipe de segurança privada dela intercepta qualquer ônibus que você tentar pegar. — Vicente soltou o braço dela apenas para deslizar a mão espalmada pelas costas dela, guiando-a à força em direção ao carro. — Entra no carro. Agora. Você vai para a minha cobertura. De lá, você não sai e ninguém entra.

Ela quis resistir, quis empurrá-lo e mandar ele para o inferno. Mas a verdade nua e crua a esmagou: o Padre Tomás tinha razão. Ela estava lidando com tratores desgovernados. Não havia mais para onde correr. Lívia se deixou ser conduzida para o banco do carona da SUV. O cheiro de couro novo e ar-condicionado a abraçou quando a porta pesada se fechou com um clique hermético, isolando-a do resto do mundo.

A dezoito quilômetros dali, no bairro nobre do Morumbi, o silêncio da mansão Albuquerque foi rasgado pelo som de cristal explodindo contra a parede.

Carmem arremessou a taça de água com toda a força que restava no braço. Os cacos de vidro choveram sobre o tapete persa de duzentos mil reais. A matriarca estava em pé no meio do seu escritório privado, vestindo um robe de seda pura, o celular pressionado contra a orelha com tanta força que os dedos doíam.

— Como assim recusado, Roberto? É um cartão Black sem limite de crédito, seu imbecil! Eu sou a vice-presidente do conselho! — Carmem berrou, a veia do pescoço saltando, a postura aristocrática desmoronando sob o peso da humilhação absoluta.

A voz do advogado chefe da holding soava metálica e aterrorizada do outro lado da linha.

Dona Carmem, a ordem partiu da cadeira da presidência. O Vicente invocou a cláusula de proteção de patrimônio. Ele alegou que a compra do prédio comercial no centro de São Paulo foi um desvio ilícito de fundos sem a aprovação do conselho. Ele congelou todas as suas contas pessoais e corporativas por tempo indeterminado. A senhora está completamente ilhada financeiramente até a próxima assembleia.

Carmem desligou o telefone na cara do advogado e atirou o aparelho no sofá de couro. Ela cravou as unhas no mármore do aparador, a respiração falhando. Vicente teve a coragem de neutralizá-la. Seu próprio sangue. Tudo por causa de uma costureira de fundo de quintal que cheirava a fracasso.

A ponta dos dedos de Carmem começou a formigar. Um zumbido agudo tomou conta dos seus ouvidos. A sala enorme pareceu encolher. A insônia já a castigava há meses, mas o que sentia agora era o pânico físico da perda completa de controle. O coração dela batia descompassado, uma arritmia que machucava o osso do peito, e a respiração curta não conseguia encher os pulmões.

Com passos duros e trôpegos, Carmem marchou até a prateleira escondida atrás de um dos livros da estante. Suas mãos tremiam levemente, um espasmo incontrolável de exaustão e fúria. Ela pegou o frasco escuro e abriu a tampa com agressividade. O corpo dela implorava por resgate. Ela jogou a cápsula de seu calmante natural na boca e engoliu a seco, apertando os olhos com força. Precisava daquele suporte botânico urgente. Focou na própria respiração, exigindo que o efeito começasse: esperou o ritmo cardíaco desacelerar, o nó sufocante na base da garganta se desfazer e a tensão de pedra nos ombros derreter. Aquele não era apenas um auxílio para dormir, era a sua âncora química, a única coisa capaz de silenciar o caos e permitir que ela voltasse a raciocinar com a frieza de um matador de aluguel. Ela não se permitiria colapsar.

Alguns minutos se passaram. O peito de Carmem parou de subir e descer freneticamente. O suor frio secou na nuca. A racionalidade sociopata que construiu o império da família voltou a assumir o volante.

Ela caminhou até a gaveta trancada da sua mesa de carvalho, digitou a senha no cofre embutido e tirou um segundo celular de lá. Um aparelho pré-pago, sem rastreio corporativo. Discou um número que sabia de cor.

Atenderam no segundo toque.

— Medeiros — Carmem falou, a voz agora perfeitamente aveludada, venenosa e calma. — Solte o dossiê. Aquele que montamos no passado, com os documentos do antigo sócio da construtora. Sim, os comprovantes de desvio de dinheiro e os inquéritos abafados.

A pessoa do outro lado murmurou algo, pedindo confirmação.

— Eu não quero saber se o homem já está morto — Carmem respondeu, um sorriso de canto nascendo nos lábios pintados. — Quero a história reescrita. Mande o pacote completo para as redações de todos os portais de fofoca e cadernos de economia do país. E certifique-se de que o rosto da filha dele, a vagabunda da Lívia, esteja estampando a primeira página de todos eles antes do café da manhã.

O sol já estava alto quando Lívia terminou de tomar o banho quente na suíte de hóspedes da cobertura de Vicente. O apartamento, localizado de frente para o Parque Ibirapuera, era uma fortaleza de vidro, mármore e madeira escura. Era estéril, imenso e silencioso demais. Ela vestiu o roupão felpudo de hotel cinco estrelas que encontrou no armário e esfregou a toalha no cabelo molhado.

Vicente a havia deixado ali com a ordem expressa de não atender a porta, nem para os funcionários. Ele estava trancado no escritório do andar de baixo, os gritos dele ao telefone vazando pelas paredes espessas a cada dez minutos.

Lívia caminhou descalça até a imensa sala de estar. O estômago roncava de fome, mas a náusea impedia que ela sequer pensasse em comer. Para quebrar o silêncio opressivo do apartamento milionário, ela pegou o controle remoto fino sobre a mesa de centro de vidro e ligou a televisão gigantesca que tomava a parede inteira.

A tela acendeu em um canal de notícias 24 horas.

Lívia se abaixou para colocar o controle na mesa, mas paralisou no meio do movimento.

A imagem transmitida em alta definição no painel brilhante a atingiu com a força de um caminhão em alta velocidade. No centro da tela, dividida ao meio, estava uma foto sua, tirada na noite do evento de caridade, com a maquiagem borrada e o rosto em pânico. Na outra metade da tela, uma foto em preto e branco do rosto sorridente de um homem de meia-idade.

A tarja vermelha de "URGENTE" piscava freneticamente no rodapé da tela, acompanhada de letras garrafais amarelas.

"ESCÂNDALO NA ALTA SOCIEDADE: O PASSADO SUJO DA NOVA NOIVA DE VICENTE ALBUQUERQUE. DOSSIÊ VAZADO REVELA QUE O PAI DE LÍVIA FOI O MENTOR DO MAIOR ESQUEMA DE FRAUDE IMOBILIÁRIA DA DÉCADA."

O controle remoto escorregou dos dedos de Lívia, batendo no chão de madeira com um baque seco. As pernas dela cederam imediatamente, e ela caiu de joelhos no tapete persa macio, os olhos arregalados, a respiração presa na garganta.

O âncora do jornal continuava falando de forma acelerada, exibindo documentos assinados, processos antigos e manchetes de famílias que haviam perdido as economias da vida inteira. Tudo apontando para um único culpado.

O nome do pai dela. O homem que a ensinou a andar de bicicleta. O herói da sua infância que havia morrido em um acidente de carro quando ela tinha quinze anos. Ali. Exposto como um monstro em rede nacional.


🗣️ Carmem jogou sujo demais! Você acha que Lívia vai acreditar nesses documentos ou vai peitar a mídia para defender a memória do pai? Comente abaixo!

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