O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 06

Capítulo 06: A Herança da Vergonha

A voz do âncora do telejornal parecia ecoar debaixo d'água. Lívia continuava ajoelhada no tapete persa, as unhas cravadas nas próprias coxas, o roupão felpudo de repente pesando como uma armadura de chumbo molhado. A imagem de seu pai na tela — sorridente, com a camisa polo desbotada que ele usava nos churrascos de domingo — estava agora manchada por tarjas vermelhas e palavras que não pertenciam a ele. Fraude. Mentoria criminosa. Ladrão.

O som da porta de carvalho maciço do escritório batendo com violência quebrou o transe. Vicente irrompeu na sala de estar. Ele havia tirado a gravata de vez e o colarinho estava amassado. A expressão dele era letal, mas quando seus olhos encontraram Lívia no chão e, em seguida, a tela de cento e vinte polegadas transmitindo o inferno ao vivo, ele paralisou.

O âncora continuava despejando o veneno: "...segundo documentos sigilosos vazados nesta manhã, o esquema de pirâmide imobiliária que lesou mais de quinhentas famílias no interior de São Paulo teve como arquiteto principal Roberto Gomes, pai de Lívia Gomes, atual noiva do bilionário Vicente Albuquerque."

Vicente praguejou alto. Em três passadas, ele cruzou a sala, pegou o controle remoto caído no chão e desligou a televisão. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração curta e arranhada de Lívia.

— Lívia — ele chamou, a voz descendo uma oitava, perdendo a aspereza executiva e ganhando um tom de alerta. Ele se ajoelhou na frente dela, a calça de alfaiataria cara raspando no tapete. — Olha para mim.

Ela não olhou. A mente dela estava em curto-circuito. O pai dela era um contador de bairro. Ele passava as noites de sexta-feira ajudando os vizinhos a preencherem declarações de imposto de renda em troca de bolo de milho e café. Ele morreu em um acidente de carro voltando de uma viagem a trabalho, deixando a família afogada em dívidas médicas que Lívia estava pagando até hoje. Ele não era um magnata do crime. Ele não era um monstro.

— É mentira — a voz dela saiu fina, quase inaudível. Ela balançou a cabeça devagar, os olhos fixos no reflexo escuro da tela desligada. — O meu pai... o meu pai não tinha dinheiro para trocar os pneus do nosso carro. Como eles podem dizer que ele roubou milhões? É mentira.

Vicente segurou os ombros dela. Os dedos longos e quentes apertaram a pele fria de Lívia através do tecido grosso do roupão.

— Eu sei que é mentira. É uma cortina de fumaça — ele disse, as palavras saindo com uma clareza cortante. O olhar dele estava sombrio, calculando os danos com a velocidade de um supercomputador. — A minha mãe está tentando criar um fato novo. Eu cortei o dinheiro dela, e ela resolveu explodir a sua reputação para forçar o conselho de ética do banco a exigir a anulação do nosso noivado. Ela pegou a falência de um ex-sócio da construtora Albuquerque de quinze anos atrás e falsificou provas jogando a culpa no contador. O seu pai era o contador terceirizado deles, não era?

O choque fez Lívia erguer o rosto. O estômago dela revirou com tanta violência que a bile queimou o fundo da garganta. O olhar dela encontrou o de Vicente, e o que ela viu ali não foi pena. Foi a confirmação nua e crua de que, no mundo dele, pessoas como o pai dela eram apenas peças de xadrez descartáveis. Danos colaterais aceitáveis em um balancete.

Antes que ela pudesse responder, um ruído estridente e mecânico começou a vibrar sobre a mesa de centro de vidro. O celular de Lívia, com a tela trincada no canto, pulava freneticamente, empurrado pelas notificações que chegavam em massa.

Ela se soltou das mãos de Vicente, o pânico acionando a adrenalina. Engatinhou até a mesa e pegou o aparelho. O visor estava inundado. Dezenas de mensagens no WhatsApp. Ligações perdidas. Notificações do perfil do Instagram de seu ateliê.

Com o dedo trêmulo, ela desbloqueou a tela e abriu a primeira mensagem. Era de dona Sônia, a noiva para quem ela estava costurando o vestido principal do ateliê — o único contrato que sobrara após a destruição da sala.

"Eu vi no jornal. Não acredito que confiei o meu dinheiro na filha de um criminoso. Quero os meus quinhentos reais de sinal de volta hoje. Se você não depositar até o meio-dia, vou na delegacia dar queixa de estelionato. Tal pai, tal filha."

Lívia engoliu a seco. Abriu a próxima. Era da dona da pequena loja do bairro que revendia algumas de suas peças de retalho.

"Lívia, não me manda mais nada. Não quero o nome da minha loja associado a você. Passa aqui de noite e recolhe as blusas que sobraram. Que vergonha."

A lista não parava. Mulheres que a conheciam há anos. Clientes de bairro. Fornecedores de tecidos que cobravam notas promissórias pendentes. A mídia de massa havia carimbado a testa dela, e a condenação social não esperava por inquéritos ou advogados. Seu ateliê físico havia sido destruído de madrugada por Carmem. Agora, ao meio-dia, o seu nome — o seu ganha-pão, a sua honestidade — estava carbonizado.

O ar desapareceu dos pulmões dela. O peito subiu e desceu rápido demais. Uma lágrima quente escorreu pela bochecha, mas ela não estava chorando de tristeza. Era a humilhação pura e corrosiva.

Vicente levantou-se. A altura dele cobriu Lívia com uma sombra esmagadora. Ele estendeu a mão, arrancou o telefone celular dos dedos dela e leu a tela. A mandíbula dele travou com tanta força que um músculo pulsou na bochecha. Ele não devolveu o aparelho. Em vez disso, enfiou a mão no bolso, sacou o próprio celular executivo e discou um número de atalho.

— Roberto — Vicente disparou assim que a linha conectou, o tom exalando a arrogância de quem resolve o mundo com uma canetada. — Acha o contato de uma tal de Sônia. E pega a lista de todos os fornecedores e clientes do ateliê da Lívia. Sim, agora. Eu quero que você faça uma transferência em dobro para cada um deles. Estorne todos os sinais, pague todas as notas promissórias, e envie um termo de confidencialidade ameaçando processar quem abrir a boca contra ela de novo. Coloca a despesa no meu centro de custo pessoal.

A voz de Vicente era fria, burocrática e letal. Mas para Lívia, soou como o som de um chicote nas costas.

Ela levantou do chão em um salto, ignorando as pernas bambas. A fúria obliterou o medo. Em um movimento brusco, ela bateu na mão de Vicente, quase derrubando o celular dele.

— Desliga isso agora! — Lívia berrou. A voz dela rasgou a sala estéril do bilionário. — Desliga a porra desse telefone, Vicente!

Vicente parou, a mão pairando no ar, os olhos se estreitando. Ele olhou para o advogado na linha, murmurou um "espera", e abaixou o aparelho, encarando-a com uma confusão sombria.

— O que você está fazendo? Eu estou resolvendo o problema.

— Resolvendo o problema? — Ela soltou uma risada rascante e sem humor, apontando um dedo trêmulo para o peito dele. — Você acha que pagar a minha dívida com o dinheiro da sua família limpa a minha barra? Você acha que jogar o dobro do dinheiro na cara das pessoas prova que o meu pai era inocente?

— Prova que elas não podem tocar em você — ele rebateu, a voz perigosamente calma, um predador que não entende por que a presa não aceita o escudo. — Elas querem sangue, Lívia. Eu estou dando dinheiro. O dinheiro cala a boca de todo mundo.

— Ele não cala a minha! — Ela empurrou o peito dele. O corpo maciço sob a camisa branca sequer se moveu, mas o gesto era carregado de aversão. — Foi o dinheiro sujo da sua mãe que colocou a foto do meu pai morto em rede nacional hoje. Eu não vou usar os seus recursos para calar os meus clientes. Eles confiaram no meu trabalho, não no seu cartão de crédito. Se você pagar eles por trás dos panos, vai ser a confissão final de que a minha família é uma fraude e que eu precisei de um bilionário para comprar o silêncio deles!

Vicente travou. O instinto corporativo dele brigava com a proximidade física dela. O cheiro do xampu barato que ela usou no banho misturado ao desespero exalado pelos poros dela quebrava a lógica fria com a qual ele sempre operou. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. O calor do corpo dele era opressivo.

— Se você não pagar as notas hoje, os fornecedores entram com pedido de busca e apreensão. A polícia civil pode te chamar para depor por causa do dossiê. Você não tem estrutura para suportar a pressão, Lívia. Deixa eu ser o muro entre você e a mídia.

— Não me trate como uma coitada — ela devolveu, o queixo erguido, os olhos castanhos queimando de raiva. Ela estendeu a mão, o dedo em riste. — Me devolve o meu celular.

Ele hesitou por meio segundo antes de soltar o aparelho velho na mão dela.

Lívia apertou o telefone com tanta força que as articulações dos dedos doeram. Ela deu as costas para ele e marchou em direção ao quarto de hóspedes. Começou a arrancar o roupão no meio do corredor.

— Aonde você vai? — a voz de Vicente a seguiu, dura e autoritária.

— Vou vestir a minha roupa amassada, e vou descer. — Ela entrou no quarto, abrindo a mochila de lona. — O meu pai guardava uma caixa de arquivo morto no porão da paróquia do Padre Tomás. As declarações de imposto antigas estão lá. Eu vou pegar aqueles papéis, vou para a Defensoria Pública e vou provar que ele era só um assalariado. Eu vou limpar o nome da minha família com as minhas próprias mãos.

A sombra de Vicente preencheu o batente da porta do quarto. Ele cruzou os braços, a camisa repuxando nos ombros largos.

— Você não vai sair desse apartamento. A entrada do prédio está lotada de repórteres. A Carmem vazou o meu endereço também. Se você colocar o pé na calçada, eles vão despedaçar você ao vivo em rede nacional.

Lívia vestiu a calça jeans e a blusa de flanela rapidamente, ignorando a vergonha de estar quase nua na frente dele. A urgência engolia qualquer pudor. Ela calçou os tênis velhos e jogou a bolsa no ombro.

— Tenta me impedir — ela cravou os olhos nele, caminhando direto para a porta.

Vicente não se moveu da soleira. Quando Lívia tentou passar, o braço dele bloqueou a passagem. A proximidade era intolerável. O atrito do corpo dele contra o dela enviou um choque que a fez prender a respiração. Ele abaixou a cabeça, o maxilar raspando quase no rosto dela.

— Eu não vou te impedir — ele sussurrou de forma ríspida, a respiração quente batendo no ouvido dela. — Mas você não vai sozinha. Se você quer ir para o inferno, Lívia, nós vamos no meu carro.

Dez minutos depois, o elevador privativo abriu na garagem subterrânea escura. O som dos passos apressados de Lívia ecoava no concreto, acompanhado pelas passadas pesadas e metódicas de Vicente. Ele destravou a enorme SUV blindada. Entraram em silêncio. A tensão dentro do veículo era espessa o suficiente para cortar a respiração.

O portão de ferro da garagem do edifício milionário começou a subir lentamente.

Antes mesmo de o portão se abrir por completo, o clarão contínuo das câmeras inundou a garagem escura como estroboscópios enlouquecidos. A calçada lá fora era um campo de guerra. Não eram apenas paparazzi com microfones. Havia pessoas comuns, idosos, mulheres com cartazes amadores colados em papelão.

"Ladrões de aposentadoria!"

"Onde está o nosso dinheiro?"

A multidão reconheceu a SUV de Vicente. Um grito coletivo de fúria cortou o ar da tarde. As pessoas avançaram em direção à saída, bloqueando a rampa de acesso, esmagando-se contra a grade do prédio.

Lívia prendeu a respiração, o coração batendo na garganta. O rosto dela perdeu a cor.

— Abaixa a cabeça e não olha para eles — Vicente ordenou com brutalidade. Ele agarrou o volante de couro grosso, a mandíbula de ferro travada, e engatou a marcha.

Ele pisou no acelerador. O motor blindado rosnou como um tanque de guerra, empurrando a frente pesada do carro para a rua, forçando a multidão histérica a recuar milímetro a milímetro.

As pessoas começaram a bater com as mãos abertas e com os punhos na lataria preta. O som abafado de tapas e gritos vazava pela blindagem acústica. Os repórteres enfiavam as lentes das câmeras contra os vidros escurecidos, tentando captar a imagem de Lívia no banco do carona.

Ela escondeu o rosto nas mãos, encolhida no banco de couro, tremendo incontrolavelmente. A vergonha era ácida. A cidade inteira a odiava por um crime que não era dela.

Vicente continuou forçando a saída, buzinando pesado. O pneu dianteiro finalmente alcançou a rua.

Foi então que um homem idoso, com o rosto vermelho de ódio e um cartaz rasgado na mão, correu pela lateral direita do carro, bem na direção da janela onde Lívia estava encolhida.

A pedra do tamanho de um punho cortou o ar.

O impacto contra o vidro blindado ao lado do rosto de Lívia soou como uma explosão de dinamite dentro do carro apertado.


🗣️ Que tenso! Vicente conseguirá tirar Lívia do meio da multidão ilesa? E o pai de Lívia, era inocente ou havia algo a esconder? Comente abaixo!

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