O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 07

Capítulo 07: O Refúgio e a Fera

O estrondo foi tão violento que Lívia sentiu a onda de choque bater contra o seu peito antes mesmo de o som registrar no cérebro. Uma teia de aranha opaca e grossa estilhaçou o vidro blindado a exatos dois centímetros do seu rosto. Ela soltou um grito abafado, encolhendo-se instintivamente contra o banco de couro, cruzando os braços sobre a cabeça em uma tentativa inútil de se proteger do impacto que nunca chegou a perfurar a cabine.

Do lado de fora, a multidão urrava. Punhos batiam contra a lataria escura, amassando o metal, enquanto flashes de câmeras estouravam como tiros através do vidro trincado.

Vicente não recuou um milímetro. A fúria no rosto dele havia ultrapassado o limite humano, transformando-se em uma frieza de chumbo. Ele não gritou com os manifestantes. Não buzinou de novo. Ele travou o maxilar, apertou o volante grosso com as duas mãos até os nós dos dedos ficarem brancos e afundou a bota de couro no acelerador.

O motor V8 blindado urrou como uma besta enjaulada. A SUV de três toneladas deu um solavanco brutal para a frente, quebrando a linha de bloqueio humano por pura força bruta. As pessoas pularam para os lados, caindo no asfalto, empurrando umas às outras para não serem esmagadas pelos pneus enormes. Em três segundos, o carro rasgou a multidão e cantou pneu, invadindo a avenida principal em alta velocidade, deixando o caos, as câmeras e os protestos engolidos em uma nuvem de fumaça cinza.

O silêncio dentro da cabine voltou a ser absoluto, quebrado apenas pela respiração curta e desesperada de Lívia. Ela continuava encolhida, o rosto escondido nos joelhos, tremendo de forma incontrolável. O som da pedra batendo contra o vidro ainda ecoava no fundo dos seus ouvidos.

Vicente olhou pelo retrovisor, garantindo que nenhum motoqueiro ou carro de imprensa estivesse na cola deles. Depois de cruzar dois semáforos vermelhos na avenida vazia, ele finalmente aliviou o pé do acelerador. Ele olhou para o banco do carona.

— Você está ferida? — A voz dele cortou o ar condicionado gelado. Era áspera, dura, mas carregava uma urgência cortante. — Lívia. O vidro estilhaçou para dentro? Alguma coisa pegou no seu rosto?

Ela balançou a cabeça devagar, sem levantar os olhos. Aos poucos, foi descendo os braços. A visão dela fixou-se na janela destruída. Se o carro fosse comum, aquela pedra teria afundado o seu crânio. Eles queriam matá-la. Pessoas que ela nunca tinha visto na vida queriam o seu sangue no asfalto por causa de um papel forjado por uma mulher bilionária e entediada.

O gosto de cobre inundou a boca dela. O pânico cedeu lugar a uma exaustão que pesava toneladas.

— Eles me odeiam — ela sussurrou, a voz oca, arranhando a garganta. — O país inteiro me odeia agora.

— O país inteiro é manipulável — Vicente rebateu na mesma hora, cortando o drama pela raiz. O tom não admitia discussão. Ele fez uma curva fechada, entrando em um bairro industrial que Lívia não reconheceu. — Em vinte e quatro horas, a mídia esquece de você e arruma outro judas para malhar. Mas até lá, você não volta para a rua. Não até eu arrancar a cabeça de quem operou esse dossiê de dentro da minha empresa.

Lívia encostou a cabeça no banco, fechando os olhos. Ela não tinha mais forças para gritar. Não tinha para onde fugir. O padre Tomás tinha razão; ela estava presa na rota de colisão de dois tratores. E agora, a única coisa que a impedia de ser triturada pela opinião pública era o mesmo homem que havia iniciado o incêndio.

O percurso durou mais quarenta minutos. Vicente fez retornos desnecessários, cruzou vielas estranhas e checou os retrovisores dezenas de vezes para garantir que estavam invisíveis. Quando finalmente reduziu a velocidade, o carro desceu uma rampa íngreme de concreto aparente, acessando uma garagem subterrânea que parecia mais um bunker militar do que um edifício residencial.

Não havia porteiro. O portão de aço maciço abriu com um comando infravermelho no painel da SUV e fechou-se com um baque surdo assim que cruzaram a linha. O lugar estava completamente vazio, iluminado por lâmpadas de LED brancas e cirúrgicas.

— Onde nós estamos? — Lívia perguntou, abrindo os olhos e encarando o concreto gelado lá fora. — Isso não é o seu apartamento.

— A Carmem sabe o endereço de todas as minhas propriedades principais. Ela vazou a cobertura do Ibirapuera para a imprensa de propósito — Vicente destravou as portas e desligou o motor. O silêncio que engoliu o carro foi pesado. Ele virou o rosto para encará-la, os olhos escuros estudando cada linha de tensão no rosto exausto dela. — Onde estamos agora é um apartamento que não existe no papel. Está no nome de uma holding fantasma sediada fora do país. Ninguém sabe que eu tenho essa cobertura. Nem o meu advogado, nem o conselho. Nem a minha mãe.

Lívia engoliu a seco. A ideia de estar em um lugar que oficialmente não existia, trancada com o homem mais imprevisível de São Paulo, fez um arrepio incômodo subir pela sua espinha. Era proteção, sim. Mas também cheirava a cativeiro.

Vicente desceu do carro, deu a volta rápida e abriu a porta para ela. Lívia hesitou por um segundo antes de aceitar a mão que ele ofereceu. A pele dele era quente e áspera, um contraste violento com o suor frio que gelava os dedos dela. O toque durou apenas o tempo necessário para ajudá-la a descer do veículo mais alto, mas a eletricidade do contato demorou a dissipar.

Eles caminharam em silêncio até um elevador de serviço camuflado na parede de concreto. Vicente passou uma tag preta no leitor digital. O painel não tinha botões, apenas uma luz verde que acendeu antes de as portas se fecharem.

A subida foi rápida e silenciosa. Quando as portas se abriram, o ar parou nos pulmões de Lívia.

A cobertura não era apenas luxuosa; era opressiva. Diferente do apartamento do Ibirapuera, que tentava passar uma aura de riqueza limpa, aquele lugar cheirava a domínio absoluto. O chão era de ardósia negra fosca. As paredes eram revestidas de painéis de madeira escura e vidro. Não havia fotos, não havia plantas. Apenas móveis de couro, telas planas e uma visão panorâmica do ponto mais alto da cidade. A cidade inteira estava aos pés deles, piscando lá embaixo, alheia à guerra silenciosa que destruía a vida dela.

— Fica à vontade — Vicente murmurou, jogando as chaves do carro sobre uma ilha de granito na cozinha americana escura. Ele começou a soltar os botões do punho da camisa, os ombros largos finalmente perdendo um pouco da tensão rígida. — Tem roupas limpas com etiquetas no closet do quarto principal. A água do chuveiro tem aquecimento rápido. Eu vou fazer algumas ligações. Se você precisar de mim, eu estou no escritório do fim do corredor.

Ele não esperou resposta. Virou as costas e sumiu na escuridão do corredor, deixando Lívia sozinha no meio de uma sala de trezentos metros quadrados.

A exaustão física finalmente a derrubou. Ela não explorou o apartamento. Apenas seguiu as instruções mecânicas do próprio corpo. Achou o banheiro, que era do tamanho do seu antigo estúdio, ligou o chuveiro na temperatura máxima e entrou debaixo d'água. Ela esfregou a pele até arder, tentando arrancar o cheiro de suor, de medo e da fumaça da rua. A água quente escorria pelo ralo, mas a sensação de sujeira imposta pela imprensa parecia grudada nos ossos.

Ao sair, Lívia abriu o closet. Haviam peças femininas de alto padrão, todas com etiquetas penduradas. Provavelmente compradas por alguma assistente e esquecidas ali. Ela ignorou os vestidos de seda e os conjuntos de cashmere. Preferiu puxar uma das camisas masculinas de algodão egípcio de Vicente que estavam na seção oposta. Vestiu a peça, que descia até o meio das coxas dela, e enrolou as mangas grandes demais. Era a única coisa que cheirava a sabão em pó neutro e segurança.

Quando Lívia voltou para a sala de estar, a noite havia caído de vez em São Paulo. O apartamento estava mergulhado nas sombras, iluminado apenas pelas luzes periféricas da rua invadindo os vidros gigantes.

Vicente estava lá.

Ele estava encostado na ilha da cozinha, de frente para as janelas. A camisa dele agora estava desabotoada até a metade do peito, e ele segurava um copo de cristal baixo com dois dedos de uísque puro. Ele não estava no telefone. Ele estava apenas observando a cidade, imóvel como uma estátua de granito.

O som dos pés descalços de Lívia no chão de pedra chamou a atenção dele. Vicente virou o rosto devagar. O olhar dele desceu pelas pernas nuas dela, varreu o algodão branco da própria camisa que a cobria e parou no rosto livre de maquiagem, onde os cabelos molhados pingavam nos ombros.

A temperatura do ambiente subiu dez graus em um milésimo de segundo.

O ar ficou espesso, quase respirável. A dinâmica entre eles havia mudado no momento em que as portas do elevador se fecharam lá embaixo. Ali, não havia câmeras, não havia a mãe dele, não havia multidão ensandecida. Eram apenas os dois, isolados em uma bolha de concreto no topo do mundo. E a química tóxica que havia entre eles — a mesma que Lívia lutava desesperadamente para esmagar desde que ele apareceu no ateliê na noite anterior — espalhou-se pela sala como gás inflamável.

Ela deveria ter recuado. Deveria ter voltado para o quarto e trancado a porta.

Mas ela não voltou. Movida por uma teimosia visceral, Lívia caminhou até ele, parando do outro lado da ilha de granito. A distância de um metro parecia nula diante do peso do olhar dele sobre ela.

— Você não está no telefone com os advogados — ela disse, a voz soando rouca no silêncio do bunker.

— Já terminei — Vicente respondeu, a voz profunda e lenta, afetada pelo álcool ou pela simples presença dela, Lívia não sabia dizer. Ele deu um gole na bebida, o pomo de adão subindo e descendo devagar. — A poeira vai baixar. O conselho pediu vinte e quatro horas para avaliar os danos da minha liminar contra as contas da Carmem.

— E se eles ficarem do lado dela? — Lívia cruzou os braços sobre o peito, uma defesa inútil contra a forma como os olhos dele pareciam descascar a camisa que ela vestia.

Vicente soltou um som baixo, meio risada, meio desdém. Ele pousou o copo de cristal no granito com um barulho seco e contornou a ilha da cozinha. Os passos lentos de um predador encurralando a caça. O instinto de Lívia gritou para ela dar um passo para trás, mas os pés dela se recusaram a sair do chão.

Ele parou bem na frente dela. Tão perto que o cheiro de uísque escocês, pós-barba caro e suor masculino embriagou os sentidos de Lívia. A camisa branca dele, entreaberta, revelava a pele quente do peito duro.

— Se eles ficarem do lado dela — ele murmurou, abaixando o rosto até ficar no mesmo nível que o dela —, eu queimo a empresa até o chão e abro outra no dia seguinte. O dinheiro não me controla, Lívia. E ela também não.

Ele levantou a mão direita. O polegar áspero dele roçou a pele do pescoço de Lívia, seguindo a linha do maxilar. O toque foi leve, mas teve o peso de uma âncora. As pernas dela bambearam, a respiração prendeu nos pulmões. A proximidade era uma tortura física. Ela odiava a forma como o corpo dela reagia a ele. Odiava precisar dele.

Lívia tentou virar o rosto para quebrar o contato, o peito subindo e descer de forma acelerada.

— Vicente, não... não faz isso — a voz dela falhou miseravelmente, um protesto que soava como um convite rasgado.

Ele não recuou. Pelo contrário. Vicente avançou meio passo, anulando qualquer espaço entre os dois, prendendo-a contra a borda gelada da bancada de granito com o próprio corpo. As mãos dele desceram para a cintura dela, apertando com uma firmeza possessiva e desesperada, enquanto o rosto dele ficava a milímetros da boca dela. A tensão acumulada das últimas vinte e quatro horas explodiu no escuro da sala, prestes a queimar os dois vivos.


🗣️ A tensão entre os dois chegou no limite! Você acha que Lívia vai ceder ao momento ou vai jogar água fria na situação? Deixe sua aposta nos comentários!

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