O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 08
Capítulo 08: A Falsa Paz
A razão gritava, debatia-se e implorava para que Lívia espalmasse as mãos no peito de Vicente e o empurrasse com a força de um soco. Era a atitude lógica. Ele era o arquiteto da demolição da vida dela, o herdeiro mimado brincando de deus com o CEP e o CPF de uma mulher que só queria ser invisível. Mas o cérebro dela estava frito. O trauma da pedra estilhaçando o vidro blindado, o ódio da multidão, a imagem do pai no jornal e a perda do ateliê haviam drenado cada gota do seu instinto de autopreservação.
Quando a boca de Vicente finalmente esmagou a dela, não houve doçura, não houve pedido de licença. Foi uma colisão brutal.
O impacto fez Lívia arquear as costas para trás, batendo a lombar na quina fria da ilha de granito. O choque térmico da pedra gelada contrastou de forma violenta com o calor que irradiava do corpo maciço dele. Vicente não a beijou como quem pede desculpas; ele a beijou como quem toma um território inimigo. A língua dele invadiu a boca dela com gosto amargo e quente de uísque escocês puro, dominando o espaço, arrancando um gemido rasgado que morreu na garganta de Lívia.
As mãos dela, que instintivamente haviam subido para o peito dele para afastá-lo, traíram o próprio comando. Os dedos agarraram o tecido da camisa branca, apertando, puxando Vicente ainda mais para perto. Ela cedeu. Cedeu porque o mundo lá fora estava tentando triturá-la viva, e, naquele instante insano, os braços do homem que a jogou aos leões eram a única trincheira blindada que restava.
A mão de Vicente escorregou pela cintura dela, agarrando o tecido frouxo da camisa masculina que Lívia vestia, e em um único movimento bruto, ele a ergueu do chão. Ela ofegou quando foi sentada sobre o granito da bancada, as pernas nuas abrindo espaço instintivamente para que ele se encaixasse no meio delas. A proximidade era intolerável e necessária na mesma medida. A dureza do quadril dele pressionou contra o centro do corpo dela, enviando um choque de adrenalina que derreteu o resto da resistência que Lívia fingia ter.
— Você não vai fugir — ele rosnou contra os lábios dela, a voz rouca, quase gutural. Ele desceu os beijos pelo maxilar, os dentes raspando a pele sensível do pescoço dela. — O que é meu, ninguém toca.
A arrogância possessiva nas palavras dele deveria ter causado repulsa, mas acendeu um pavio de gasolina nas veias de Lívia. O desespero se transformou em luxúria pura e raivosa. Ela cravou as unhas na nuca dele, embrenhando os dedos no cabelo escuro, e o puxou de volta para a boca dela, devolvendo a brutalidade do beijo na mesma moeda.
Não demorou para que a cozinha ficasse pequena demais. Vicente quebrou o beijo apenas para puxá-la para o colo. Lívia cruzou as pernas em torno do quadril dele, agarrada aos ombros largos como se estivesse pendurada na beira de um precipício. Ele caminhou a passos largos e pesados pelo corredor de ardósia escura, o som dos sapatos dele ecoando no silêncio do bunker milionário.
A porta do quarto principal foi aberta com um chute. O ambiente era imenso, mergulhado em uma penumbra azulada que entrava pelas vidraças. O centro do quarto era dominado por uma cama que parecia um altar de lençóis escuros. Vicente não perdeu tempo com delicadezas. Ele a jogou sobre o colchão macio. O corpo dela afundou nos travesseiros de pluma, a respiração falhando enquanto assistia, hipnotizada, ao CEO arrancar a própria camisa e jogá-la no chão de qualquer jeito.
Os músculos do abdômen e do peito dele estavam tensos, brilhando levemente de suor na luz fraca. Ele era a porra de uma máquina. Uma arma de destruição em massa projetada para moer quem entrasse no seu caminho, e agora essa arma estava totalmente focada nela.
Vicente subiu na cama, engatinhando como um predador sobre os lençóis de seda. Ele agarrou as bordas da camisa de algodão que Lívia usava e puxou o tecido para cima, arrancando a peça pelo pescoço e jogando-a para longe no escuro. A nudez de Lívia foi exposta à luz fria da cidade lá fora, e pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu vergonha do próprio corpo. O olhar dele não procurava defeitos, não julgava as curvas. O escuro nos olhos de Vicente era admiração crua, predatória e faminta.
Ele cobriu o corpo dela com o dele. O peso era perfeito, aterrador e reconfortante.
Não houve juras de amor. Não houve promessas sussurradas sobre o futuro. O que aconteceu naquela cama gigante foi o exorcismo de uma semana amaldiçoada. Eles não fizeram amor; eles travaram uma guerra de sobrevivência. Lívia mordeu o ombro dele para não gritar quando o prazer explodiu, as unhas desenhando linhas vermelhas nas costas largas de Vicente. Cada estocada era um golpe contra o ódio de Carmem, contra as manchetes mentirosas, contra a repulsa da sociedade. Ele a consumiu por inteira, até que Lívia não lembrasse mais do próprio nome, do barulho da multidão, ou da cidade que piscava silenciosa cem metros abaixo deles.
A exaustão os nocauteou nas primeiras horas da madrugada. O mundo finalmente calou a boca.
Quando Lívia abriu os olhos novamente, a luz agressiva e fria da manhã já invadia o quarto principal. O sol de São Paulo não perdoava. O colchão do lado direito estava vazio, os lençóis amassados e frios. O cheiro almiscarado do sexo ainda impregnava o ar, mas o calor humano havia desaparecido.
Ela piscou algumas vezes, o corpo inteiro dolorido, uma sensação de peso muscular que a lembrava com nitidez absurda da violência e da intensidade da noite anterior. Um formigamento subiu pela base da nuca. A realidade voltou a despencar sobre seus ombros. As contas bloqueadas, a difamação em rede nacional, o ateliê destruído. O sexo não apaga os incêndios do lado de fora, apenas desliga os alarmes por algumas horas.
Lívia engoliu a seco, puxou o lençol escuro em volta do corpo nu e se sentou na beirada da cama. O silêncio do apartamento era perturbador. Não havia barulho de água caindo no chuveiro, nem cheiro de café vindo da cozinha. Vicente provavelmente estava no escritório, trancado em ligações com os advogados, calculando o próximo movimento no xadrez corporativo contra a mãe.
Ela precisava se vestir. Precisava do próprio celular para ver o tamanho do estrago que as últimas doze horas haviam causado. Ela olhou pelo quarto, tentando localizar a blusa de flanela e a calça jeans que havia deixado na sala na noite anterior. Não estavam lá. Vicente devia ter pegado a camisa dele que ela usava como vestido.
Ela levantou, arrastando o lençol consigo. Perto da enorme janela de vidro duplo, uma poltrona de couro italiano abrigava as roupas que Vicente usara no dia do resgate na igreja. A calça de alfaiataria escura e o cinto de couro caro estavam jogados ali de qualquer jeito, junto com as chaves do carro.
Lívia caminhou até a poltrona, pensando em procurar alguma camiseta limpa esquecida por ali. Ela puxou a calça de alfaiataria para o lado, para ver se a camisa branca de ontem estava por baixo.
O movimento brusco desequilibrou o tecido grosso. Um objeto pesado e metálico escorregou do bolso interno da calça e caiu no chão de madeira com um baque surdo e seco.
Lívia recuou um passo pelo susto. Ela olhou para baixo.
Não era um isqueiro. Não era uma chave de cofre.
Era um gravador digital de voz de última geração. Pequeno, da cor de chumbo, com um microfone de alta captação na ponta e uma pequena tela LCD desligada. O tipo de equipamento usado por jornalistas investigativos ou espiões corporativos. O tipo de coisa que você carrega quando não confia na sombra que caminha ao seu lado.
O frio começou na ponta dos pés de Lívia e subiu escalando pela espinha, congelando o sangue nas veias. O ar desapareceu dos pulmões.
Vicente havia descido daquela SUV blindada em frente à igreja com aquele gravador no bolso. Ele a colocou dentro do carro, a levou para a cobertura que ninguém conhecia, destrancou o esconderijo mais seguro do mundo, tudo isso com o equipamento de escuta enfiado na roupa.
As mãos de Lívia tremiam incontrolavelmente quando ela se abaixou. O lençol escorregou um pouco pelos ombros. Ela pegou o gravador gelado do chão. O metal escuro pesou na palma da sua mão como um bloco de chumbo.
Por que ele estava gravando?
A resposta bateu no peito dela com a força daquela pedra estilhaçando o vidro do carro. Ele era o herdeiro de um império. Ela era o alvo de um dossiê criminal vazado. A mãe dele precisava de provas para destruí-la perante o conselho de ética. E Vicente precisava de alavancagem para destruir a mãe.
Eles estavam em guerra, e Lívia era a porra da munição. Tudo o que ela dissera na igreja, todo o desespero vomitado no carro sobre o ateliê destruído, os detalhes da sua pobreza, o pânico com as acusações falsas do pai. Tudo estava registrado ali dentro. Talvez até mesmo a submissão, os gemidos, a confissão do corpo dela no escuro deste quarto estivesse nas ondas sonoras gravadas, pronto para ser usado em uma mesa de negociação, mostrado para advogados engravatados e velhos do conselho administrativo.
Uma náusea ácida rasgou a garganta de Lívia. Ela deu um passo para trás, esbarrando na poltrona. A paixão visceral e a falsa sensação de segurança que haviam consumido a noite dela evaporaram instantaneamente, substituídas pela vergonha mais doentia e absoluta que ela já experimentara na vida.
Ela virou o aparelho, os olhos castanhos arregalados de horror. O polegar dela escorregou até o botão central. Play.
Ela não chegou a pressionar.
A voz barítona, baixa e impiedosa de Vicente cortou o ar do quarto, vinda da porta às costas de Lívia.
— Eu teria cuidado com o que você vai ouvir aí dentro. Tem coisas que não podem ser desfeitas depois que saem do escuro.
Lívia travou no lugar, o gravador apertado na mão suada, sabendo que acabava de dormir com o inimigo.
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