O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 09
Capítulo 09: O Alvo Errado
A voz de Vicente rasgou o silêncio do quarto como uma lâmina fria. Lívia congelou no lugar. O gravador digital na mão dela pareceu dobrar de peso. Ela ergueu os olhos devagar, o coração batendo com tanta força contra as costelas que chegava a doer. Vicente estava escorado no batente da porta, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que caía baixa nos quadris. O cabelo escuro estava úmido e desgrenhado. Ele não parecia surpreso, muito menos culpado.
— Você me gravou — a voz de Lívia saiu num sussurro áspero, quebrado pela traição. Ela deu um passo para trás, esbarrando na poltrona, o lençol de seda escorregando pelos ombros nus. — Você me trouxe para cá, me colocou na sua cama, e estava gravando o meu desespero para usar como moeda de troca na sua empresa.
Vicente desencostou do batente e caminhou lentamente para dentro do quarto. A expressão dele era indecifrável, uma máscara de granito puro.
— Aperta o play, Lívia — ele ordenou, parando a menos de dois metros dela. O tom dele não era um pedido, era um desafio. — Paga para ver.
O ódio superou o medo. Com o dedo tremendo, ela apertou o pequeno botão central do aparelho metálico. O silêncio estático durou um segundo, seguido pelo som abafado de saltos batendo contra um piso de mármore e o barulho de louça fina.
E então, a voz peçonhenta de Carmem Albuquerque invadiu o quarto.
"— ...Eu não pago duzentos mil por mês para a sua firma de advocacia me dizer o que eu não posso fazer, Medeiros. Eu quero o conselho de ética na minha mão amanhã cedo. O dossiê daquela morta de fome já está nos jornais. Se o Vicente não assinar a renúncia da presidência até sexta-feira, eu quero que você use a nossa influência no Ministério Público para abrir um inquérito falso contra ele. Fraude de licitação, lavagem de dinheiro, foda-se. Inventa um crime, planta as provas nas contas da holding e manda prender o meu filho. Eu prefiro ver o Vicente algemado e a nossa imagem sangrando por um trimestre do que deixar aquela favelada botar a mão em um centavo das minhas ações."
O áudio foi cortado por um chiado e o aparelho parou a reprodução.
Lívia parou de respirar. O choque anestesiou cada músculo do seu corpo. Ela encarou o gravador escuro na própria mão e, em seguida, olhou para o homem à sua frente.
A mãe dele estava disposta a forjar um crime federal e mandá-lo para a cadeia apenas para afastá-lo dela. A frieza psicopata de Carmem não tinha limites morais ou familiares.
— Você acha mesmo que eu perco o meu tempo gravando você chorando? — Vicente encurtou a distância, arrancando o gravador da mão dela com um movimento rápido e bruto. Ele jogou o aparelho sobre a cama desarrumada. — Eu deixei aquele equipamento escondido na sala de reuniões da matriz antes do evento de caridade. Eu sabia que ela ia tentar um golpe de estado pelas minhas costas. Eu só não sabia que ela seria baixa o suficiente para forjar a prisão do próprio filho.
A náusea subiu pela garganta de Lívia. As pernas dela cederam e ela se sentou com força na beirada do colchão, puxando o lençol para cobrir o peito. A cidade lá fora já fervia no trânsito da manhã, mas dentro daquele bunker, o oxigênio parecia escasso.
— Ela quer te prender... — Lívia murmurou, tentando processar a violência daquela informação. — Vicente, você precisa entregar isso para a polícia. Se eles plantarem provas nas contas da holding, você não escapa.
— E não é exatamente isso que eu estou resolvendo? — Ele passou a mão pelo rosto, a exaustão finalmente rachando a armadura impenetrável dele. — Eu vou explodir a Carmem na assembleia de acionistas hoje à tarde. Quando eu tocar esse áudio no telão do conselho, o mercado financeiro vai varrer o nome dela do mapa. Ela sai algemada direto da cadeira de vice-presidente.
Lívia abaixou a cabeça, o peso daquela guerra familiar esmagando o resto da sua energia. O estresse brutal dos últimos dias a estava consumindo por dentro. Ela se sentia suja, inadequada, exposta. A imagem das manchetes do jornal zombando do seu corpo, do seu quadril largo no vestido alugado, e as risadas das dondocas ecoavam no seu cérebro. O pânico injetava cortisol nas veias dela, fazendo com que se sentisse inchada, pesada e nojenta na própria pele.
Ela levantou da cama num solavanco. Precisava das próprias roupas. Precisava de um pingo de dignidade. Ignorando Vicente, Lívia enrolou o lençol ao redor da cintura como uma saia improvisada e caminhou até a sala de estar, onde sua mochila de lona velha estava jogada no canto do sofá de couro.
Ela se ajoelhou no chão de ardósia e abriu o zíper, revirando o pouco que havia sobrado da sua vida ali dentro. Entre uma escova de cabelo quebrada e a blusa de flanela, seus dedos encontraram o frasco escuro. Lívia tirou as cápsulas do fundo da bolsa. As mãos tremiam levemente. Aquilo não era mágica, era química de sobrevivência. Em meio ao caos absoluto onde bilionários destruíam seu nome e sua família, engolir aquela cápsula para o emagrecimento era um ato desesperado, mas silencioso, de recuperar o comando sobre o próprio corpo. Era blindar a própria casca contra as palavras venenosas de Carmem. Lívia abriu a tampa com o polegar, jogou uma cápsula na boca e engoliu a seco, forçando a respiração a desacelerar enquanto o gosto amargo descia pela garganta, trazendo consigo a promessa teimosa de que ela ainda tinha o controle da sua forma física e da sua mente.
Ela abaixou a cabeça, os ombros tensos, fechando o zíper da bolsa.
Passos silenciosos soaram no chão de ardósia atrás dela. Vicente havia seguido-a até a sala. Lívia sentiu a presença dele antes mesmo de ele falar. O calor que irradiava da pele dele quebrou a frieza do ar-condicionado.
— Você não precisa disso — a voz dele soou baixa, rouca.
Lívia travou. Ela fechou a mão ao redor do frasco, sentindo o rosto esquentar de vergonha. A armadura dela rachou.
— Você não entende — ela rebateu, a voz embargada, recusando-se a olhar para trás. — A sua mãe tinha razão sobre uma coisa, Vicente. Eu não me encaixo na porra do seu mundo. Vocês olham para as mulheres como se elas fossem produtos de vitrine. E eu sou a vitrine quebrada.
Ele não respondeu com palavras. Vicente se ajoelhou atrás dela no chão duro. As mãos grandes e quentes dele seguraram os ombros nus de Lívia, deslizando devagar pelos braços tensos, até cobrirem a mão dela que apertava o frasco. O toque era possessivo, mas absurdamente cuidadoso.
— A minha mãe é um cadáver putrefato com cheiro de Chanel — ele sussurrou, o rosto colado na lateral da cabeça dela, o nariz roçando o cabelo bagunçado de Lívia. — E o meu mundo é um ninho de ratos. Você é a única coisa inteira que eu encontrei nos últimos dez anos.
Ele deslizou a mão para a cintura dela, apertando o aperto do lençol, puxando as costas de Lívia contra o peito largo dele.
— Se isso te faz se sentir bem, se te dá controle, usa. Eu nunca vou julgar as suas defesas — Vicente continuou, a voz vibrando nas costas dela. Ele virou o rosto dela com delicadeza, forçando Lívia a encará-lo nos olhos. O escuro do olhar dele era intenso, letal e cego para os defeitos que ela via em si mesma. — Mas não mude um milímetro achando que eu quero menos do que você já é. Você é perfeita para mim. Exatamente do jeito que você está agora.
A sinceridade brutal no tom dele derrubou o último muro que Lívia havia erguido. Os olhos dela marejaram, não de tristeza, mas do alívio dilacerante de ser aceita no meio daquele inferno. Ela soltou o frasco na bolsa e virou o corpo, enfiando o rosto na curva do pescoço dele, os braços agarrando a nuca de Vicente como se a vida dependesse daquilo. Ele a abraçou de volta com uma força esmagadora, enterrando o rosto no cabelo dela, os dois ajoelhados no chão gelado do bunker.
O som agudo e eletrônico da campainha do elevador privativo explodiu na sala.
DING.
Vicente travou. O corpo inteiro dele virou pedra em uma fração de segundo. Ele empurrou Lívia levemente para trás, levantando-se num salto fluido e letal. Os olhos dele dispararam para a porta de aço escovado do elevador de serviço, do outro lado do salão imenso.
Ninguém tinha acesso àquele andar. O cartão digital de acesso mestre estava no bolso do paletó dele.
— Vai para o quarto. Agora — Vicente mandou, o tom voltando a ser o do CEO que dava sentenças de morte no conselho.
Lívia se levantou, agarrando a mochila, o lençol escorregando. O pânico entalou na garganta.
Antes que ela pudesse dar três passos em direção ao corredor, o som de explosão ensurdeceu os dois. O painel eletrônico ao lado do elevador estourou em faíscas quando uma carga de detonação direcional arrebentou a fechadura magnética. As portas pesadas de aço foram abertas na força bruta, batendo contra as paredes laterais.
Homens de preto invadiram o apartamento como uma enxurrada de sombras mortais. Coletes táticos, fuzis apontados para o chão, coturnos pesados pisoteando a ardósia limpa. Eram pelo menos doze agentes da Polícia Federal.
— Polícia! Parados! Mãos na cabeça, agora! — O grito do comandante da tropa tática reverberou pelo salão.
Lívia soltou a bolsa, o grito preso na garganta, erguendo as mãos instintivamente enquanto o laser vermelho das armas varria a parede ao lado dela.
Vicente não levantou as mãos. Ele se colocou a meio passo na frente de Lívia, o peito largo servindo de escudo humano contra as armas longas, os músculos do maxilar pulsando de pura raiva homicida.
Um homem engravatado, de terno cinza mal cortado e com um distintivo pendurado no pescoço, passou pelo meio do grupo tático, segurando um mandado impresso.
— Vicente Albuquerque? — o delegado perguntou, a voz carregada de satisfação burocrática.
— O próprio. — Vicente não recuou. O olhar dele poderia cortar o delegado ao meio. — Estourar a porta de um endereço privado sem ordem de arrombamento é crime de abuso de autoridade. O meu advogado vai tirar a sua pele no tribunal amanhã.
O delegado deu um sorriso de canto, levantando a folha de papel.
— O seu endereço não consta mais como privado, senhor Albuquerque. Recebemos uma denúncia anônima de lavagem de dinheiro, lastreada por documentos fiscais entregues diretamente ao Ministério Público nesta madrugada. A ordem é de prisão preventiva e busca e apreensão.
O chão sob os pés de Lívia sumiu.
O áudio. Carmem não havia esperado até sexta-feira. A matriarca tinha antecipado o golpe. Ela forjou as provas no meio da madrugada e acionou os cães de caça do Estado antes que Vicente pudesse apresentar a gravação ao conselho.
— O senhor está preso por fraude fiscal corporativa, formação de quadrilha e evasão de divisas — o delegado continuou, fazendo um gesto para dois agentes avançarem. — Virem o suspeito de costas e algemem.
Os policiais avançaram, agarrando os braços grossos de Vicente e girando o corpo dele com brutalidade. Vicente não reagiu à violência física. Ele sabia que resistir a uma ordem tática ali terminaria em sangue, e Lívia estava logo atrás dele. O som metálico das algemas de aço travando nos pulsos do bilionário ecoou no salão em silêncio.
— Vicente! — Lívia deu um passo à frente, a voz falhando, o desespero rasgando as cordas vocais.
Um policial apontou o cano da arma na direção dela.
— Para trás, senhora!
— Não encosta nela! — Vicente rugiu, a voz explodindo com uma força gutural que fez os policiais recuarem meio passo. Ele virou o pescoço, ignorando as mãos que apertavam seus ombros, e cravou os olhos em Lívia. A frieza executiva tinha evaporado; o que restava era urgência desesperada.
— Lívia, escuta! — ele gritou, enquanto era arrastado de costas em direção ao buraco do elevador. — Não abre a boca para a polícia! Não assina nenhum papel! Vai no quarto, pega o meu terno que está na poltrona e liga para o Roberto! O gravador é seu agora! Usa ele e destrói a minha mãe!
— Andando, cala a boca! — O policial empurrou a nuca dele, forçando Vicente a entrar no espaço apertado do elevador com o resto da equipe tática.
A porta de metal, amassada pelo arrombamento, foi puxada à força pelos policiais, fechando-se com um rangido doentio de ferro contra ferro.
Lívia ficou sozinha no meio da sala destruída. O som das sirenes policiais continuava ecoando lá embaixo na rua. A respiração dela saía pesada. A mulher encolhida e com medo que correra do ateliê havia morrido ali. O homem que a protegeu estava algemado. E agora, as chaves do império e a corda para enforcar Carmem Albuquerque estavam nas mãos dela.
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