O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 10

Capítulo 10: O Peso do Jogo

O som do elevador descendo ecoou pelo poço como o rosnado de um monstro de metal engolindo a sua presa. No apartamento, o silêncio que se seguiu à invasão tática era ensurdecedor, quebrado apenas pelo zumbido elétrico dos fios expostos no painel destruído e pela poeira de concreto que ainda pairava no ar denso.

Lívia estava paralisada no meio da sala de estar. O ar não passava da garganta. A imagem de Vicente sendo arrastado, algemado com as mãos nas costas, queimava atrás de suas pálpebras a cada vez que ela piscava. Ele não recuou. Ele não tentou se salvar. O homem que tinha poder para comprar bairros inteiros usou o próprio corpo como escudo para impedir que a polícia apontasse uma arma para o rosto dela.

"Usa ele e destrói a minha mãe!"

A ordem rasgada dele reverberou na cabeça de Lívia, ativando uma chave de emergência no seu cérebro. O pânico primitivo, que até minutos atrás mandava ela correr e se esconder, foi subitamente carbonizado por uma onda de fúria limpa e absoluta. A sua tristeza secou. A mulher assustada que havia sido esmagada pela alta sociedade de São Paulo morreu naquele chão de ardósia.

Lívia piscou com força, o olhar focando na fumaça dissipando perto da porta. Ela girou nos calcanhares e correu pelo corredor escuro, os pés descalços batendo forte contra o piso gelado. Ela invadiu o quarto principal, a respiração ofegante, os olhos varrendo a penumbra. A poltrona de couro italiano estava no mesmo lugar. A calça de alfaiataria de Vicente ainda repousava ali, e, no chão, o gravador digital de voz brilhava opaco na luz fraca que entrava pela vidraça.

Ela se jogou de joelhos, agarrando o aparelho metálico. O metal frio pareceu queimar a palma da sua mão. Aquela era a arma. A única coisa que poderia implodir o complô de Carmem Albuquerque e tirar Vicente da cadeia antes que ele fosse assassinado na prisão ou enterrado em processos falsos.

Mas ela precisava de ajuda. "Liga para o Roberto."

O próprio celular de Lívia estava na mochila na sala, mas Roberto não atenderia um número desconhecido, e ela não sabia a porra do número dele de cor. Ela olhou freneticamente pelo quarto. A cama gigante, os criados-mudos de madeira escura. Ali.

O celular executivo de Vicente, o mesmo que ele havia usado para congelar as contas da mãe, estava jogado em cima do travesseiro esmagado. Ele deve ter largado o aparelho ali durante a noite.

Lívia engatinhou sobre o colchão, pegando o telefone. A tela acendeu, exigindo reconhecimento facial ou senha. Ela xingou baixo, a frustração socando o seu estômago. Ela não tinha a senha. O polegar dela deslizou pela tela bloqueada, abrindo a aba de chamadas de emergência, pronta para tentar ligar para a polícia e avisar sobre um sequestro institucional, quando a tela mudou de cor.

O telefone vibrou na mão dela. Uma chamada recebida. O nome na tela não era um número desconhecido. Era "Roberto (Jurídico Matriz)".

O sangue zumbiu nos ouvidos de Lívia. Ela deslizou o botão verde para cima e colou o aparelho no ouvido, o coração batendo na garganta.

— Vicente, pelo amor de Deus, me diz que você não está no apartamento — a voz do advogado explodiu do outro lado da linha, ofegante, o barulho de trânsito intenso ao fundo. — O desembargador acabou de me ligar. A Carmem enfiou uma liminar de gaveta no Ministério Público no meio da madrugada. Eles expediram um mandado de prisão preventiva. A Polícia Federal está a caminho do bunker, você precisa sair daí agora!

— Eles já vieram — Lívia cortou, a voz saindo dura, rouca, irreconhecível para si mesma. — A polícia já levou ele, Roberto. Destruíram a porta do apartamento e desceram com o Vicente algemado há menos de dois minutos.

Um silêncio sepulcral engoliu a linha por três segundos.

— Quem está falando? — o tom do advogado caiu vinte graus, assumindo a frieza de quem lida com controle de danos. — É a Lívia?

— Sou eu. O Vicente mandou eu te ligar. Ele deixou um gravador comigo. Tem o áudio da Carmem confessando a fraude, comprando advogados para forjar os crimes e prender o filho. Ela admite tudo na fita. O Vicente disse que isso destrói ela.

Roberto soltou um palavrão sujo, o alívio e o pânico se misturando na voz dele.

— Escuta com muita atenção, Lívia. — O ritmo da fala do advogado acelerou. — A Carmem não vai mandar você para a delegacia. Se ela quisesse você presa, os agentes teriam levado você no mesmo elevador. Ela não te processou, ela mandou te apagar. O fato de os policiais não terem te arrastado significa que eles não tinham ordem legal sobre você. Eles vieram buscar o alvo principal.

O estômago de Lívia afundou.

— Eles me viram. Eles sabem que eu estou aqui.

— Exato. E o comandante da operação provavelmente acabou de mandar uma mensagem para a equipe de segurança privada da Carmem dizendo que o passarinho ficou no ninho. — Roberto engoliu a seco, a buzina de um carro soando alta perto dele. — Os capangas da mãe dele devem estar subindo a rampa da garagem neste exato segundo para "limpar" o apartamento e confiscar qualquer equipamento do Vicente. Eles não vão te levar para depor, Lívia. Eles vão sumir com você. E com esse gravador.

O ar gelou os pulmões dela. O instinto de sobrevivência bateu como um tambor.

— O que eu faço?

— Você corre. Não pega roupa, não pega bolsa. Pega só o gravador. Tem uma porta corta-fogo camuflada no final do corredor principal, perto da cozinha. É a escada de emergência do prédio. Desce três andares, e procura a porta de manutenção de serviço. Fica lá. Eu estou a cinco minutos de distância, vou entrar com a minha SUV pela doca de carga do prédio.

— Roberto... — a voz de Lívia embargou por um segundo.

— Não para de andar, Lívia! Vai!

Ela desligou o telefone e o enfiou no bolso de trás da calça jeans que havia vestido às pressas minutos antes, junto com a blusa de flanela. O gravador digital foi espremido na mão esquerda. O metal apertava os nós dos dedos.

Ela saiu do quarto correndo, os pés escorregando na ardósia. A sala de estar continuava vazia, o vento frio de São Paulo entrando pelo buraco onde antes ficava a porta de aço do elevador. Ela ignorou a mochila no sofá. O celular velho, os retalhos de tecido, tudo ficou para trás. Aquela vida acabou. A única coisa que importava agora era sobreviver com o dispositivo na mão.

Ela dobrou o corredor escuro em direção à cozinha.

Foi então que o chão tremeu sutilmente.

Lívia paralisou na quina da ilha de granito. O som inconfundível de cabos de aço sendo puxados sob alta tensão ecoou pelo poço vazio do elevador na sala de estar. O motor da casa de máquinas, lá no alto do prédio, zumbiu pesado.

A cabine do elevador estava subindo.

Não era a polícia voltando. A polícia estava lá embaixo com o comboio tático prendendo o herdeiro bilionário. Roberto estava certo. Aquilo era o esquadrão de limpeza de Carmem Albuquerque. E eles estavam a segundos de distância.

Lívia engoliu o grito. Ela se forçou a sair do congelamento e se atirou contra o corredor lateral, tateando a parede de madeira escura no escuro até encontrar o pequeno desnível que escondia a porta corta-fogo.

Ela empurrou a maçaneta de barra pesada. A porta cedeu com um gemido metálico de falta de lubrificação, revelando o poço de escadas de concreto cru, iluminado por lâmpadas fluorescentes amareladas e pisca-piscas de emergência.

Lívia entrou e soltou a porta, permitindo que a mola hidráulica a puxasse de volta. O barulho do fecho batendo pareceu um tiro na escadaria vazia. Ela não hesitou. Começou a descer os degraus de dois em dois, a mão livre deslizando pelo corrimão de ferro gelado, o suor frio escorrendo pela nuca.

Ela desceu o primeiro andar. As pernas queimavam pela descida rápida. A respiração ecoava na caixa de concreto acústica.

Desceu o segundo andar.

Quando alcançou o patamar do terceiro andar abaixo da cobertura, o som estourou no alto da escadaria. A porta corta-fogo lá em cima, no apartamento de Vicente, foi arrombada com um estrondo violento, batendo contra a parede de concreto.

— A porta da escada está destrancada! — uma voz masculina, grossa e agressiva, desceu pelo vão do prédio como uma sentença de morte. — Ela está descendo a pé. Pega a vadia!

O barulho de coturnos pesados descendo os degraus em disparada inundou o fosso. Eram dois, talvez três homens. E eles eram rápidos. Lívia não tinha vantagem. Ela estava de tênis velho, exausta e em pânico.

Ela correu pelo patamar do terceiro andar, procurando a porta de manutenção de serviço que Roberto mencionou. A iluminação naquele andar estava queimada. O breu era quase absoluto, iluminado apenas pela faixa vermelha da placa de "Saída".

Ela tateou a parede desesperadamente, os passos lá em cima se aproximando com a brutalidade de uma avalanche. Os homens não estavam fazendo questão de serem silenciosos. Eles sabiam que a presa não tinha saída.

Os dedos de Lívia esbarraram no metal liso de uma maçaneta. Era uma porta secundária. Ela girou o trinco com violência e empurrou. A porta abriu, revelando um corredor estreito e escuro, entupido de dutos de ar-condicionado e tubulações industriais da estrutura do prédio.

Ela se espremeu para dentro do corredor técnico e fechou a porta com o máximo de cuidado possível, rezando para que o trinco não fizesse barulho. O escuro a engoliu por completo. O cheiro de poeira e óleo de máquina entupiu o nariz dela.

Pelo vão da porta de ferro, ela ouviu as botas baterem no patamar onde estava segundos atrás.

— Ela não desceu mais! — o homem gritou, a voz a poucos centímetros da porta onde Lívia estava escondida. O impacto de um corpo batendo contra a parede do outro lado fez a estrutura tremer. — Vasculha os corredores de serviço. Não deixa essa desgraçada chegar na rua. A dona Carmem quer o equipamento dela de volta.

Lívia apertou o gravador contra o próprio peito com as duas mãos, prendendo a respiração até os pulmões queimarem. Ela fechou os olhos, imersa nas sombras, sabendo que qualquer movimento em falso seria o seu fim.

Foi quando a tela do celular do Vicente, enfiado no bolso traseiro de sua calça, acendeu sozinha no escuro, emitindo um brilho branco e impossível de ignorar pelo vidro opaco da porta.


🗣️ Que sufoco! Lívia será descoberta pelos capangas ou conseguirá escapar no último segundo? Comente abaixo!

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