O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 12
Capítulo 12: Queimando Pontes
O frio do banco de concreto da cela de triagem subia pelas pernas de Lívia, infiltrando-se nos ossos com a mesma lentidão corrosiva que o pânico se instalava em sua mente. O cheiro de amônia, ferrugem e suor velho impregnava o ar úmido do subsolo da Polícia Federal. Ela estava sentada no canto mais escuro do espaço de quatro metros quadrados, abraçando os próprios joelhos contra o peito, a blusa de flanela servindo como uma barreira inútil contra a temperatura agressiva do ar-condicionado central.
A adrenalina, que a havia empurrado a entrar naquela sala de interrogatório e vomitar uma confissão falsa, tinha evaporado completamente. O que restava era o choque cru e aterrador da realidade. O som da grade pesada de ferro batendo e da trava eletrônica girando minutos atrás ainda ecoava dentro de sua cabeça. Ela havia assinado o próprio nome na base de um inquérito federal. Confessara um crime cibernético contra o maior conglomerado corporativo da América Latina. Para o sistema, ela não era uma costureira endividada tentando proteger o homem que a defendeu. Ela era a herdeira da fraude, a oportunista que se infiltrou na cama do bilionário para roubá-lo de madrugada. Carmem Albuquerque devia estar estourando champanhe na sua mansão no Morumbi neste exato segundo.
O gosto metálico do medo inundou a boca de Lívia. Ela apertou os olhos com força, cravando as unhas na calça jeans. Estava feito. O Vicente estava livre. Ele voltaria para a cobertura de vidro dele, acionaria o batalhão de advogados e limparia o próprio nome. A vida dele seguiria intacta, exatamente como deveria ser antes de ele cruzar o caminho dela naquele ateliê miserável. O sacrifício doía, rasgava o peito, mas era o preço correto a se pagar para estancar a hemorragia que ela havia causado na vida dele.
Mas o silêncio resignado da carceragem não durou mais do que quinze minutos.
Um estrondo abafado, vindo do andar de cima, vibrou pelo teto de concreto. Não era o som de portas batendo. Era o som de fúria. Vozes masculinas explodiram no corredor que dava acesso ao subsolo, graves e agressivas. Lívia levantou a cabeça bruscamente, o coração voltando a esmurrar as costelas.
— Você não vai descer para o bloco de celas, Vicente! — A voz do advogado Roberto ecoou pelas paredes descascadas do corredor, esganiçada e carregada de pânico. — Se você forçar a entrada naquela área restrita, eles vão te indiciar por invasão e desacato, e a pauta da preventiva volta para a mesa do juiz em cinco minutos!
— Que indiciem! Eu compro a delegacia inteira e demito o juiz se for preciso, mas ninguém vai manter ela trancada ali embaixo por mais um segundo! — O rugido que rasgou o corredor não parecia humano. Era o som de um animal grande e letal que acabou de arrebentar a própria jaula. O barítono de Vicente fez o chão tremer.
Passos pesados de botas táticas soaram em disparada. Os agentes federais que faziam a guarda do subsolo correram para bloquear a porta de aço que separava a triagem da recepção.
— Senhor Albuquerque, afaste-se da porta blindada imediatamente! O senhor foi liberado, mas não tem autorização para circular na carceragem! — O grito de alerta de um dos policiais soou firme, acompanhado do barulho inconfundível de um coldre sendo destravado.
Lívia engasgou. Ela se jogou contra a grade da cela, agarrando as barras de ferro enferrujado com as duas mãos, o rosto espremido contra o metal frio.
— Não! Vicente, vai embora! — ela gritou, a voz rasgando a garganta seca, ignorando a dor nas cordas vocais. Se ele agredisse um policial federal ali dentro, a confissão dela não serviria de nada. O império dele afundaria na lama da mesma forma.
A gritaria do outro lado da porta blindada atingiu o ápice. O som de corpos sendo empurrados contra a parede metálica reverberou violentamente.
— Encosta a mão na sua arma de novo e eu garanto que amanhã você não vai ter dinheiro para comprar pão na padaria, seu merda! — Vicente cuspiu a ameaça com uma ferocidade homicida que gelou o sangue de qualquer um no recinto. — Abre a porra dessa porta! Ela não tem laudo de perícia digital, não tem flagrante e não tem mandado de prisão expedido! A confissão dela é nula sob coação psicológica, e o meu advogado acabou de protocolar o habeas corpus no Tribunal de Justiça!
— O alvará de soltura demora no mínimo duas horas para descer no sistema, doutor! — O delegado titular apareceu, a voz burocrática tentando impor ordem no caos absoluto que o bilionário havia instaurado no departamento. — Se acalme, ou vou prendê-lo novamente por obstrução da justiça!
— Você não prende nem a própria respiração sem a autorização da minha holding, delegado! — Vicente avançou, a sombra da voz dele esmagando a autoridade do oficial de terno cinza. — Eu liguei para o Secretário de Segurança Pública há dois minutos. O alvará da Lívia não vai pelo sistema, ele está vindo de helicóptero direto para a sua mesa. Agora, você destranca aquela grade e me deixa ver a minha mulher, ou eu mando os meus advogados dissecarem as suas contas bancárias na mídia amanhã cedo. Escolhe o seu veneno.
Um silêncio sepulcral engoliu o corredor. A tensão era tão espessa que Lívia sentia a pressão nos ouvidos, como se estivesse mergulhando em águas profundas. A audácia de Vicente era suicida, mas a força gravitacional do dinheiro e do poder que ele exalava dobrava até o ferro daquelas portas. Ninguém desafiava a família Albuquerque e saía inteiro. Carmem usava o poder com veneno nos bastidores; Vicente usava como um martelo de demolição ao vivo.
Ouviu-se um suspiro pesado e derrotado do delegado.
— Agente Oliveira, libere a catraca. Abra a cela três. Mas o advogado desce junto para assinar o termo provisório.
O bipe eletrônico destravou a porta blindada principal. Os passos pesados voltaram a ecoar, agora no piso emborrachado da carceragem. Lívia recuou um passo da grade, o peito subindo e descendo em um ritmo frenético. O suor frio escorria pela nuca dela.
A sombra de Vicente dobrou a esquina do corredor mal iluminado.
O estado físico dele a atingiu como um soco. A camisa branca italiana, sempre impecável, estava amassada, rasgada no ombro direito e manchada de sujeira nas mangas. O cabelo escuro caía desordenado sobre a testa. Os pulsos dele carregavam marcas vermelhas e inchadas deixadas pelo aço das algemas que o prenderam minutos antes. Mas nada disso se comparava ao estado do rosto dele.
O maxilar estava tão travado que as veias do pescoço pulsavam perigosamente. Os olhos escuros dele, que costumavam carregar a frieza insensível de um predador corporativo, agora queimavam com um fogo maníaco e desesperado. Ele parou na frente da cela de Lívia no exato segundo em que o policial terminou de girar a chave na fechadura e abriu a grade de ferro rangente.
Vicente não esperou a porta abrir completamente. Ele empurrou o metal pesado com o ombro, invadindo a cela estreita.
Lívia tentou dar um passo para trás, ensaiando uma desculpa, tentando explicar que fez aquilo porque não havia outra saída, mas as palavras morreram na língua.
Ele a agarrou.
As mãos grandes de Vicente não foram gentis. Elas foram urgentes. Ele segurou as laterais do rosto dela, os dedos grossos e quentes afundando no cabelo bagunçado de Lívia, puxando-a para cima com uma força possessiva que a tirou da ponta dos pés. Ele não a beijou. Ele encostou a própria testa na dela, a respiração dele batendo contra a pele dela, irregular, falha e carregada de pura exaustão.
— Você perdeu a cabeça? — a voz dele saiu como um raspão de lixa no escuro. Não era raiva. Era o terror absoluto de quem quase viu a única coisa real da própria vida ser atirada em um abismo trancado. — Assumir a porra de um crime federal? Eu mandei você usar o áudio para salvar a própria pele, Lívia! Eu mandei você jogar a minha mãe no fogo, não se jogar na frente do trem por mim!
O calor do corpo dele engoliu o frio da cela. As pernas de Lívia cederam ligeiramente, e ela agarrou os pulsos dele, as pontas dos dedos tateando a pele esfolada pelas algemas. A visão dela embaçou com lágrimas que ela jurou que não deixaria cair na frente daqueles policiais.
— Se eu vazasse o áudio, os advogados dela iam dizer que era fraude... — Lívia sussurrou de volta, a voz trincando, as mãos tremendo sobre a camisa amassada dele. — O Roberto me explicou. Iria levar meses. O juiz ia manter você aqui dentro até o inquérito acabar. Eles iam destruir a sua holding. Eles iam destruir você, Vicente. Eu não tinha nada a perder. Você tinha um império.
Vicente fechou os olhos com força. Ele soltou um palavrão entredentes, um som gutural de frustração absoluta. Ele não se importava com o império. Ele soltou o rosto dela, apenas para passar os dois braços ao redor da cintura de Lívia, puxando o corpo dela contra o seu com uma brutalidade que amassou as costelas dela, como se quisesse fundir os dois em uma coisa só. O abraço dele era um escudo impenetrável. Era a promessa violenta de que ninguém mais colocaria a mão nela.
— Que o império vá para o inferno — ele murmurou no cabelo dela, apertando o abraço. — Eu queimo tudo até o chão e abro outra empresa em uma semana. Mas eu não passo um dia da minha vida sabendo que você está trancada num buraco imundo por minha causa. Nunca mais faça isso, Lívia. Nunca mais tire o controle das minhas mãos desse jeito.
O advogado Roberto limpou a garganta na porta da cela, segurando uma pasta parda contra o peito, visivelmente desconfortável com a exposição emocional do chefe.
— Vicente, o termo de soltura condicional está assinado. Nós precisamos sair desse prédio agora, antes que a imprensa vaze que vocês dois estão na mesma delegacia. A frota já está nos esperando na porta dos fundos.
Vicente recuou meio passo, mas não soltou a cintura de Lívia. O escudo humano estava ativado novamente. Ele olhou para o advogado, a expressão de predador voltando ao lugar com a mesma rapidez com que o sol nasce.
— Avisa aos seguranças para fazerem um cordão de isolamento. Se um único fotógrafo encostar um dedo nela, eu quebro a câmera no rosto dele.
A saída da sede da Polícia Federal foi um borrão de fumaça, chuva fina e flashes estourando no asfalto escuro. A imprensa havia farejado o sangue. Repórteres gritavam perguntas sobre o mandado de prisão da madrugada e a súbita liberação do CEO da Albuquerque Holding. Vicente ignorou todos. Ele cobriu a cabeça de Lívia com o próprio paletó e a empurrou para dentro do banco de trás da primeira SUV blindada da fila, batendo a porta pesada com um estampido seco que calou os jornalistas mais próximos.
Ele entrou pela outra porta, sentando-se ao lado dela. O motorista afundou o pé no acelerador, e o comboio de três carros rasgou a avenida molhada de São Paulo, deixando os holofotes para trás.
Dentro da cabine escura do Maybach blindado, o silêncio durou apenas o tempo necessário para o coração de Lívia voltar ao peito. O cheiro de couro novo e do perfume amadeirado de Vicente encheu o ar. Ela escorregou pelo banco, exausta, a cabeça encostada no vidro grosso, observando as luzes da cidade passarem borradas lá fora.
Vicente apertou o botão do painel, subindo o vidro de isolamento acústico que os separava do motorista e de Roberto, que ia no banco do carona. A parte de trás do carro virou um cofre impenetrável.
Ele se recostou no couro, as pernas abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos, a postura inclinada para a frente, exalando uma energia escura e aterrorizante. Ele não olhou para Lívia. Ele olhou para as próprias mãos, onde as marcas vermelhas das algemas ainda ardiam. O rosto dele não carregava alívio. Carregava a frieza de quem estava prestes a iniciar uma chacina.
— A minha mãe achou que eu estava blefando quando congelei os cartões dela — Vicente quebrou o silêncio, a voz incrivelmente baixa, desprovida de qualquer emoção. O tom monocórdico era mil vezes mais assustador do que quando ele gritava.
Lívia virou o rosto lentamente. Ela sentiu um arrepio ruim subir pela espinha.
— Vicente... o que você vai fazer? — ela perguntou, a intuição dizendo que a guerra estava apenas saindo da fase diplomática.
Ele levantou a cabeça. Os olhos escuros cruzaram com os dela no escuro do carro. A brutalidade corporativa que havia construído a fortuna dele estava toda concentrada ali, focada em um único alvo.
— Ela cruzou a linha vermelha. Ela forjou um inquérito. Ela comprou um juiz e mandou a polícia estourar a minha porta para colocar as mãos no meu pescoço, e jogou a sua reputação no lixo no processo. — Ele arrumou os punhos da camisa rasgada com uma calma mortal. — Ela não quer brincar de jogo de xadrez? Então nós não vamos jogar.
Lívia engoliu a seco, o pânico ressurgindo.
— Você tem a confissão em áudio dela. O Roberto disse que isso seria o fim dela na presidência.
— Tirar ela da cadeira do conselho é muito pouco para o que ela fez você passar hoje — Vicente rebateu, inclinando-se na direção de Lívia, a aura de poder absoluto irradiando do corpo largo dele. — A Carmem não vai ser apenas expulsa da empresa. Eu vou secar as contas nas Bahamas. Eu vou transferir as patentes das construtoras para uma offshore que não tem o nome dela. Eu vou inundar o mercado com ações fantasmas amanhã na abertura da bolsa e forçar um colapso que vai pulverizar o patrimônio pessoal dela até o último centavo.
A respiração de Lívia parou. O que ele estava descrevendo era um crime financeiro real e massivo, um movimento suicida no mercado financeiro para afundar o próprio navio apenas para garantir que a mãe se afogasse junto.
— Vicente, se você fizer isso, você perde metade do seu império! A CVM vai investigar a sua holding, você pode ir preso de verdade!
Ele não piscou. A fúria silenciosa no rosto dele não abriu espaço para a lógica corporativa. Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar acariciando a pele pálida e suja de poeira da delegacia, uma delicadeza assustadora contrastando com o monstro que acabava de se libertar.
— Eu falei na cela, Lívia, e eu não repito promessas vazias — Vicente declarou, a promessa soando como a sentença de morte da família Albuquerque. — Eu vou aniquilar a minha mãe financeiramente. Até o fim do dia de amanhã, a mulher que te mandou engolir meio milhão em uma caçamba de lixo não vai ter dinheiro nem para comprar a porra de uma caixa de fósforos.
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