O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 20

Capítulo 20: O Peso da Coroa

O cheiro de tinta acrílica fresca e verniz amadeirado preenchia o ar do imenso salão. O novo ateliê não ficava espremido no centro velho de São Paulo, entre calçadas quebradas e cheiro de escapamento de ônibus. Ele ocupava o andar térreo de um edifício de alto padrão no coração de Pinheiros. A fachada de vidro temperado escuro exibia apenas o nome "Lívia Gomes" em letras minimalistas de aço fosco. Não havia manequins sem cabeça ou goteiras no teto. Havia apenas luxo, espaço e a tranquilidade absoluta de quem, finalmente, segurava as rédeas da própria vida.

Três semanas haviam se passado desde a implosão da família Albuquerque. Vinte e um dias desde que o mercado financeiro assistiu à maior e mais brutal transferência de poder da história corporativa do país.

Lívia deslizou a palma da mão sobre o tampo de carvalho maciço da nova mesa de corte. A madeira lisa, sem farpas, era fria contra a pele dela. O silêncio do fim de expediente era um luxo que ela havia aprendido a saborear. Os funcionários que ela contratara — seis costureiras com carteira assinada, pagas muito acima do piso salarial do mercado — já haviam ido embora. Ela estava sozinha, cercada por tecidos de seda importada e linho puro que custavam fortunas, mas que agora eram troco de pão para a dona da Albuquerque Holding.

Ela soltou um suspiro pesado, recostando os quadris na beirada da mesa. Lívia não usava vestidos de grife cheios de logomarcas para ostentar o seu novo status. Estava vestida com uma calça de alfaiataria preta impecável e uma blusa de seda chumbo, os cabelos presos em um coque firme. A mulher assustada e invisível que entrou no baile de caridade com um vestido alugado havia sido carbonizada nas chamas do escândalo. A que sobrou era feita de ferro fundido.

A holding estava nas mãos de Roberto, que fora promovido a CEO operacional por ordem direta de Lívia. Ela assinava os cheques, aprovava os balancetes pelo tablet de dentro do ateliê e mandava na diretoria com a ponta do dedo. A alta sociedade paulistana, a mesma que a massacrou nos jornais meses atrás, agora implorava por uma vaga na sua agenda de vestidos sob medida. O cinismo da elite não a machucava mais. Ela cobrava o triplo do valor e fazia questão de não sorrir nas provas de roupa. O mundo girava em torno do poder, e ela havia se tornado o centro de gravidade.

O clique macio da porta de vidro da entrada sendo destrancada cortou a quietude do ateliê.

Lívia não precisou virar a cabeça para saber quem era. O som dos passos pesados e calmos batendo contra o piso de porcelanato escuro já estava gravado na sua biologia. Vicente cruzou o salão em direção aos fundos. Ele não usava mais os ternos de três peças que eram a sua armadura na presidência. Estava vestido de forma quase brutal: uma calça jeans escura, botas de couro e uma jaqueta de motoqueiro preta sobre uma camiseta básica, o cabelo escuro levemente bagunçado pelo vento de São Paulo.

Ele parou a um metro dela, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta. O olhar de Vicente, escuro, intenso e sempre predatório, varreu o salão impecável e depois focou nela. Aquele homem havia aberto mão de bilhões de reais e do próprio nome apenas para garantir que ninguém mais pudesse tocar nela.

— O Roberto me mandou uma mensagem — Vicente quebrou o silêncio, a voz grave ecoando levemente no espaço amplo. O tom dele carregava uma mistura de orgulho afiado e ironia. — Ele disse que você barrou a aquisição da construtora no Rio de Janeiro hoje de tarde porque o conselho de ética deles tinha uma brecha no passivo trabalhista.

Lívia cruzou os braços sob o peito, sustentando o olhar dele sem baixar o queixo.

— O passivo trabalhista deles era um lixo. Eles operavam com empresas terceirizadas irregulares. Eu não vou sujar as contas da minha holding comprando um abatedouro de funcionários só para inflar as ações no semestre. O conselho velho achou ruim, mas a caneta é minha.

Vicente soltou uma risada curta, rouca, o peito largo subindo sob a camiseta de algodão. Ele tirou as mãos dos bolsos e diminuiu a distância entre eles com dois passos lentos, encurralando-a contra a mesa de carvalho. A proximidade imediata fez o ar do ateliê ficar subitamente rarefeito. O cheiro de couro da jaqueta dele misturado com o perfume amadeirado atingiu os sentidos de Lívia como um soco no estômago.

— Você colocou os velhos de terno para mamar na mamadeira em menos de três semanas — ele murmurou, abaixando o rosto até que os narizes quase se tocassem. A voz dele despencou uma oitava, assumindo aquele tom rouco que arrepiava a nuca dela. — Você destruiu o império da minha família de dentro para fora, e reconstruiu do seu jeito. Eu avisei a eles que não deviam subestimar a dona da empresa.

Lívia não recuou. Ela espalmou a mão no peito duro de Vicente, sentindo as batidas lentas e pesadas do coração dele através do tecido da camisa. O calor da pele dele irradiava para a sua mão, uma âncora viva que a lembrava de que, no meio de todo aquele caos corporativo, a única coisa real era ele.

— Falando na sua família... — ela provocou de leve, embora o assunto não fosse uma brincadeira. — O relatório dos investigadores saiu hoje de manhã. Carmem foi despejada do último flat alugado nos Jardins. Os advogados do Estado confiscaram os bens físicos para cobrir a multa de evasão fiscal. Disseram que ela gritou na calçada até perder a voz.

Vicente não piscou. O rosto dele não demonstrou um pingo de pena, compaixão ou remorso. A frieza com que ele lidava com a própria mãe era aterrorizante e libertadora ao mesmo tempo. Ele havia enterrado o próprio sangue vivo e jogado as chaves fora.

— O mundo gira, e o asfalto é duro — ele respondeu, a indiferença cortando o ar como uma lâmina de gelo. Mas, no segundo seguinte, a atenção dele voltou totalmente para Lívia. A frieza derreteu, substituída por uma urgência carnal, possessiva. Ele deslizou as mãos pela cintura dela, apertando o tecido da blusa de seda com força, puxando-a para colar contra o corpo dele. — Esquece a Carmem. Esquece o conselho. Eu não dirigi do outro lado da cidade para falar de advogados.

Lívia arquejou quando a dureza do corpo dele pressionou o seu quadril contra a beirada da mesa de corte. A tensão acumulada das últimas semanas evaporou. O estômago dela deu um nó violento de pura luxúria. Ela agarrou a gola da jaqueta de Vicente, puxando o rosto dele para o dela.

O beijo não foi romântico. Foi uma colisão. Uma afirmação de posse de ambos os lados. Vicente invadiu a boca dela com a mesma intensidade brutal que usara na noite do apartamento invisível, a língua marcando território, o gosto quente e familiar consumindo todo o oxigênio que Lívia tentava puxar. As mãos dela subiram para a nuca dele, embrenhando os dedos no cabelo grosso, enquanto ele a suspendia pela cintura, sentando-a sobre a madeira fria da mesa de trabalho.

Eles estavam no controle de tudo. A cidade, a empresa, o dinheiro, os inimigos moídos no tribunal. Lívia cravou as unhas nos ombros dele, o peito subindo e descendo descompassado, a respiração misturada à dele na penumbra do ateliê milionário. Ela fechou os olhos, saboreando a vitória. Ninguém nunca mais pisaria no nome dela. A paz, finalmente, havia sido forjada a ferro, fogo e papelada.

Mas, a dez quilômetros dali, a paz era apenas uma ilusão amaldiçoada.

O centro da cidade de São Paulo estava mergulhado em uma tempestade violenta. Os raios rasgavam o céu noturno, iluminando os prédios velhos do bairro de Santa Cecília com clarões brancos e doentios. A água despencava impiedosa, alagando as ruas de paralelepípedo e lavando a sujeira das calçadas em direção aos bueiros entupidos.

Na Paróquia de São Judas, o silêncio era absoluto.

A missa noturna havia terminado há quase uma hora. O Padre Tomás andava pelo corredor central da igreja vazia, os sapatos gastos fazendo um eco oco no chão de pedra fria. O cheiro de incenso queimado e madeira envelhecida pairava no ar denso. O velho sacerdote estava exausto. O peso da paróquia e os fantasmas do passado de Lívia haviam drenado os seus ossos nas últimas semanas. Ele se sentia sujo por ter abrigado os segredos daquela família maldita no porão, mesmo que isso tivesse ajudado a garota a virar o jogo.

Tomás parou no fundo da nave principal, girando a tranca pesada de ferro das enormes portas de madeira, trancando o mundo lá fora.

Ele se virou, caminhando a passos lentos e arrastados em direção ao altar principal para apagar as últimas velas. A luz amarelada tremeluzia violentamente a cada trovão que fazia os vitrais centenários vibrarem.

Ao se aproximar do mármore branco do altar, algo quebrou a simetria da toalha de linho engomada.

Não era um livro de preces. Não era um cálice de vinho.

Tomás franziu a testa, os olhos semicerrados na penumbra. Ele subiu os dois pequenos degraus de pedra e parou. O coração do velho padre falhou uma batida, um arrepio incômodo subindo pela base do pescoço.

No centro exato do altar, descansando sob a luz trêmula da última vela acesa, havia um envelope negro. O papel era grosso, texturizado, selado no centro com uma gota pesada de cera preta, sem qualquer brasão ou marca. Não havia remetente. Não havia nome de destinatário.

A igreja estava trancada. Ele mesmo havia verificado todas as portas antes do fim da missa. Alguém com habilidades furtivas, ou com as chaves do passado, havia entrado ali silenciosamente enquanto ele dispensava os últimos fiéis na porta.

As mãos ásperas e calejadas de Tomás hesitaram antes de alcançar o envelope. A intuição dele, calejada por décadas ouvindo a podridão humana nos confessionários, gritava que aquilo não era uma doação. Aquilo era veneno puro.

Ele quebrou o selo de cera negra com o polegar. O som do papel rasgando soou anormalmente alto no vazio da paróquia. Tomás enfiou a mão no interior escuro e puxou o conteúdo.

Era uma única fotografia. Impressa em papel fosco, a imagem não era da era digital limpa; tinha os granulados e o aspecto sombrio de uma câmera profissional operada há mais de uma década.

Tomás levou a foto para perto da luz da vela. Os olhos dele varreram a imagem, e o sangue simplesmente fugiu do seu rosto. O estômago do padre revirou, uma náusea fria rasgando o seu peito.

A foto havia sido tirada em um cemitério. O céu estava cinzento, chovendo exatamente como a noite de hoje. No centro da imagem, diante de uma cova recém-coberta por terra molhada e uma lápide simples onde se lia claramente o nome "ROBERTO GOMES", estava um homem de terno preto.

O homem não estava chorando. Ele não parecia um familiar enlutado. A postura era ereta, as mãos enfiadas nos bolsos, o rosto jovem endurecido por uma frieza de chumbo, observando a cova do contador assassinado com uma indiferença calculada e predatória.

Tomás conhecia aquele rosto. A cidade inteira conhecia.

Era Vicente Albuquerque. Dez anos mais jovem. Muito antes daquele evento de caridade. Muito antes de ele cruzar o caminho de Lívia e fingir que ela era uma casualidade em sua vida. Muito antes de ele jurar no corredor da delegacia que só havia descoberto os crimes da própria família há poucos dias.

As mãos do padre tremeram de forma incontrolável. A fotografia escorregou dos seus dedos. Enquanto o papel caía em câmera lenta, Tomás viu que havia uma frase escrita no verso da imagem com caneta tinteiro vermelha, em uma caligrafia fina e implacável.

"O diabo não destrói o inferno por amor. Ele destrói para apagar os próprios rastros."

A foto bateu no mármore do altar no exato momento em que um trovão colossal estourou no céu de São Paulo, sacudindo as paredes da velha igreja. Tomás recuou um passo, a respiração presa, a mente girando em um curto-circuito de terror.

Vicente não era o escudo de Lívia. O herdeiro não a protegeu da mãe. Vicente mentiu. Vicente manipulou as peças, jogou a própria mãe na cadeia, doou a empresa para Lívia apenas para garantir que a única herdeira viva do homem que *ele* ajudou a enterrar ficasse completamente dominada e amarrada em sua cama, sem nunca desconfiar de quem realmente terminou o trabalho na rodovia quinze anos atrás.

A guerra não tinha acabado. Lívia não tinha vencido os monstros. Ela tinha acabado de coroar o próprio carrasco, e, pior, ela o amava por isso.

O padre Tomás virou as costas para o altar e correu em direção à sacristia, o pânico engolindo o fôlego que lhe restava. Ele precisava avisar a garota antes que as portas do ateliê novo se trancassem por dentro e a engolissem para sempre.


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