O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 14

Capítulo 14: O Sangue no Asfalto

O som rítmico do monitor cardíaco parecia ter ficado mais alto, ou talvez fosse apenas o sangue pulsando nos tímpanos de Lívia. A transição no rosto de Carmem foi tão bizarra, tão desprovida de humanidade, que o ar no quarto VIP do hospital de repente cheirou a necrotério. A mulher frágil e chorosa que implorava perdão ao filho segundos atrás havia evaporado. O que sobrou na cama de lençóis brancos foi uma predadora letal, absolutamente lúcida e entediada com o próprio teatro.

Lívia recuou um passo instintivo, as costas batendo contra o papel de parede texturizado do quarto. O frio do gesso atravessou a blusa de flanela, mas não foi o suficiente para ancorá-la.

— Do que você está falando? — Lívia sussurrou, a voz saindo áspera, arranhando a garganta seca. Ela queria virar as costas. Queria abrir a pesada porta de madeira e correr para o corredor iluminado, onde Vicente estava, mas os pés dela se recusaram a sair do chão.

Carmem ajeitou o travesseiro nas próprias costas com a mão livre do acesso intravenoso, o sorriso de canto ganhando um contorno venenoso. A cápsula que ela havia engolido minutos antes estabilizou o pânico dela. A mente sociopata da matriarca trabalhava agora em capacidade máxima, cirúrgica e impiedosa.

— O laudo da Polícia Rodoviária Federal disse que foi aquaplanagem, não é? — Carmem perguntou, o tom casual, como se discutisse a previsão do tempo. Ela inclinou a cabeça, os olhos mortos fixos nos de Lívia. — Chovia muito naquela noite na rodovia Dutra. Um pneu dianteiro estourado na curva da serra. O carro capotou três vezes antes de bater na mureta de concreto. Traumatismo craniano severo. Morte instantânea.

O chão sob os pés de Lívia simplesmente desapareceu. Um zumbido agudo invadiu seus ouvidos. As palavras de Carmem eram a transcrição exata, palavra por palavra, da certidão de óbito que a mãe de Lívia guardava na gaveta da cômoda há quinze anos. Detalhes que a mídia não havia publicado no dossiê forjado daquela manhã.

— Como você sabe disso? — A respiração de Lívia começou a falhar, o peito subindo e descendo de forma errática. — O jornal de hoje não falou sobre o acidente.

— Eu sei disso porque fui eu quem pagou o perito para redigir a merda do laudo, Lívia. — Carmem soltou uma risada curta e seca, um som que não carregava um pingo de humor, apenas o cinismo de quem controla o destino alheio. — Custa muito barato comprar a assinatura de um policial rodoviário neste país quando você tem o cofre da Albuquerque Holding nas mãos.

A náusea atingiu o estômago de Lívia com a força de um soco inglês. A bile subiu quente e ácida pela garganta. Ela levou a mão à boca, os olhos arregalados, o terror físico travando seus músculos.

— O seu pai não era o gênio do crime que os jornais estão pintando. — Carmem continuou, a voz aveludada e letal dissecando a memória do homem morto. — O Roberto era apenas um contador terceirizado de quinta categoria. Um assalariado medíocre que teve o azar de auditar a pasta errada na construtora do meu marido. Ele encontrou os desvios. Ele encontrou a lavagem de dinheiro que construiu o primeiro bilhão da nossa família. E o imbecil achou que a atitude correta era colocar os papéis numa maleta e nos chantagear exigindo que nos entregássemos à Receita Federal.

Lívia tentou falar, tentou gritar que era mentira, mas a língua parecia feita de chumbo. A imagem do pai, sorrindo e cheirando a café coado, misturou-se à imagem de metal retorcido e sangue no asfalto molhado.

— Pessoas como o seu pai não entendem como o mundo funciona — a matriarca suspirou, gesticulando levemente com a mão livre. — Eles acham que a moralidade é um escudo. Mas a moralidade não para um caminhão sem freio na descida da serra. Nós precisávamos proteger a empresa. Precisávamos proteger o legado do Vicente. O seu pai era um tumor no balanço financeiro, Lívia. E tumores a gente extirpa.

— Você mandou matar o meu pai. — As palavras finalmente escaparam da boca de Lívia, não como uma pergunta, mas como a constatação do horror absoluto. Lágrimas grossas e quentes transbordaram, rasgando o rosto sujo dela.

— Eu fiz uma limpeza de caixa. — Carmem corrigiu com frieza burocrática. — E agora, preste muita atenção na sua própria burrice, garota. Você acha mesmo que entrou na vida da minha família por obra do acaso? Você acha que o homem que acabou de mandar a mãe para a cadeia olhou para as suas roupas de brechó naquele ateliê minúsculo e se apaixonou por você?

O coração de Lívia falhou uma batida. Um arrepio congelante subiu pela base da espinha. O veneno de Carmem encontrou o ponto mais vulnerável, a ferida que Lívia tentava esconder até de si mesma.

— O Vicente é o CEO desde os vinte e cinco anos. — Carmem cravou os olhos nela, deliciando-se com a destruição psicológica da garota. — Ele revisou todos os esqueletos no armário dessa empresa. Ele sabe exatamente de onde veio a fortuna dele. Ele sabe o que aconteceu com o contador Roberto Gomes na rodovia Dutra. Você acha que ele comprou o seu ateliê, colocou você no carro blindado dele e te levou para a cama porque te acha especial?

Lívia balançou a cabeça de forma agressiva, tampando os ouvidos com as mãos.

— Cala a boca. Fica quieta! É mentira! Ele não sabia!

— Ele sabia de cada gota de sangue no asfalto! — Carmem elevou o tom, a voz ecoando cortante no quarto estéril. — Ele sempre soube quem você era. O Vicente te trouxe para perto porque manter você na coleira, comendo na mão dele e agradecendo pelas migalhas, era a forma mais segura de garantir que o esgoto do passado não voltasse para foder as ações da nossa empresa na bolsa! Você é a porra de um passivo trabalhista que ele resolveu abafar com um anel de noivado!

Um soluço violento rasgou a garganta de Lívia. O quarto começou a girar. O cheiro de hospital misturou-se com a sensação sufocante de estar sendo enterrada viva. O homem que a havia defendido. O homem que se colocou na frente da arma de um policial por ela. O homem para quem ela havia acabado de confessar um crime federal e estava disposta a ir para a cadeia para proteger.

Ele era o herdeiro do sangue do pai dela.

Ele a usou.

Cada olhar, cada beijo brutal, cada toque possessivo no apartamento invisível dele... tudo não passava de controle de danos. Ela não era uma mulher para ele. Era uma bomba-relógio que ele decidiu desarmar deitado na própria cama.

— E no fim das contas... — O sorriso de Carmem voltou, letal e satisfeito, ao ver a alma de Lívia quebrar em mil pedaços diante dos seus olhos. — Você mesma fez o trabalho sujo. Você assinou a confissão de fraude. Limpou o nome do Vicente, destruiu a mim, e de quebra vai apodrecer num presídio federal defendendo o dinheiro que foi sujo com os miolos do seu próprio pai. Xeque-mate, costureira.

Lívia não respondeu. Ela não tinha oxigênio para articular uma sílaba. O choque traumatizante paralisou suas cordas vocais.

Ela girou nos calcanhares, as pernas bambas ameaçando ceder a cada milímetro. Ela empurrou a pesada porta de madeira do quarto VIP com o peso inteiro do próprio corpo e cambaleou para o corredor.

A luz branca do lado de fora feriu seus olhos marejados.

A dez metros de distância, no final do corredor reluzente, perto do balcão de enfermagem deserto, Vicente estava de costas. Ele segurava o telefone celular colado ao ouvido. A postura dele era intransigente. O paletó estava perfeitamente alinhado nos ombros largos. Ele falava com a segurança férrea de quem era dono do mundo, ditando regras, quebrando advogados, operando o império que foi cimentado com a desgraça da família dela.

Lívia parou no meio do corredor. Os dois agentes da Polícia Federal olharam para ela, mas ela não os viu. A visão dela estava focada exclusivamente nas costas de Vicente.

As mãos dele, que seguravam o celular... eram as mesmas mãos que herdaram o patrimônio sujo de morte. A boca que beijou a dela algumas horas atrás pertencia ao homem que encobriu o assassinato. O protetor implacável era, na verdade, o seu carcereiro.

Vicente deve ter sentido o peso do olhar dela. O instinto predatório dele nunca falhava. Ele parou de falar no telefone abruptamente e virou o corpo devagar.

Quando os olhos escuros dele encontraram o rosto pálido, manchado de lágrimas e completamente oco de Lívia, a frieza de CEO desapareceu do rosto dele em uma fração de segundo. O celular escorregou da mão dele, pendendo frouxo ao lado do corpo. Ele deu o primeiro passo na direção dela, a preocupação rasgando a máscara de controle.

— Lívia... — ele chamou, o tom baixo, carregando uma urgência que agora soava falsa, manipuladora, doentia aos ouvidos dela.

Ela não esperou que ele se aproximasse. O instinto primitivo de fuga tomou o controle absoluto do corpo dela. Lívia deu um passo para trás. Depois outro. Ela não disse uma palavra. Não fez uma acusação. Apenas virou as costas para o homem mais poderoso que já havia conhecido e correu em direção às pesadas portas duplas das escadas de emergência, sentindo a própria alma sangrar no asfalto da memória.


🗣️ Traição imperdoável! Você acha que Carmem disse a verdade sobre as intenções de Vicente ou apenas manipulou Lívia para destruí-los? Comente o que você faria no lugar dela!

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