O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 15
Capítulo 15: Rastro de Cinzas
A pesada porta corta-fogo da escadaria de emergência do hospital bateu atrás de Lívia com um estrondo metálico, cortando o silêncio do corredor VIP e engolindo-a na penumbra do fosso de cimento. Ela não caminhou. Ela despencou pelos degraus. As pernas falhavam a cada apoio, os joelhos batiam um contra o outro, mas o terror absoluto nascido das palavras de Carmem era um chicote invisível rasgando as suas costas.
Ele sabia. Ele sempre soube de cada gota de sangue no asfalto.
A frase ecoava dentro do crânio dela, ricocheteando nas paredes de concreto enquanto ela descia o terceiro, o quarto, o quinto andar em disparada. O estômago de Lívia revirava violentamente. A bile ácida subiu rasgando a garganta e ela precisou engolir a seco, apoiando a mão suada no corrimão de ferro gelado para não rolar escada abaixo. O toque de Vicente. Os beijos urgentes no apartamento às escuras. A forma como ele a defendeu na frente das câmeras, como enfrentou o delegado da Polícia Federal. Tudo aquilo foi dissecado, invertido e transformado em um esgoto de manipulação pura.
O homem não a queria. Ele queria amordaçá-la. A filha do contador morto era um risco ambulante para as ações da holding. Ao trazê-la para a própria cama, Vicente garantiu que o inimigo estivesse cego, domado e grato pelas migalhas.
E a pior parte, a ferida que a fazia querer arrancar a própria pele com as unhas, era que ela havia caído na armadilha de forma patética. Tinha ido até a delegacia confessar um crime federal, disposta a ser jogada no inferno de um presídio, para salvar a pele do herdeiro do sangue do próprio pai.
Lívia empurrou a porta do térreo com o ombro e irrompeu na calçada dos fundos do hospital. A madrugada de São Paulo a recebeu com uma chuva agressiva, grossa e gelada. O vento cortou a blusa de flanela molhada em segundos, mas ela agradeceu pelo choque térmico. Precisava de algo físico para abafar a dor dilacerante no peito.
Ela não tinha dinheiro para um táxi. Não podia ir para a rodoviária do Tietê; Vicente havia avisado no dia anterior que as câmeras de reconhecimento facial a entregariam em minutos aos seguranças dele. Ela puxou o capuz da blusa, escondendo o rosto manchado de lágrimas e chuva, e começou a correr pelas calçadas alagadas da Bela Vista, misturando-se aos poucos mendigos e trabalhadores noturnos que se espremiam sob as marquises.
Lívia precisava sumir. Mas para desaparecer de verdade do radar de um bilionário que controlava a cidade, ela precisava de dinheiro vivo e de um destino que não deixasse rastro digital. Havia apenas uma pessoa no mundo que a ajudaria sem fazer perguntas e sem entregá-la aos cães de caça da família Albuquerque.
No quarto VIP do hospital, o silêncio era espesso como piche.
Vicente terminou a chamada com o juiz plantonista. O bloqueio das patentes internacionais de Carmem havia sido executado. A guerra financeira estava oficialmente no ponto de não retorno. Ele guardou o celular no bolso da calça amassada, esfregou o rosto exausto com as duas mãos e empurrou a porta de madeira para voltar ao quarto.
Ele esperava encontrar Lívia encostada na parede, assustada, precisando da âncora dele. Ele estava pronto para tirá-la dali e enfiá-la em um jato particular para qualquer país onde a mãe dele não pudesse alcançá-la.
Mas a parede estava vazia.
O quarto estava vazio, exceto por Carmem, deitada na cama hospitalar. A matriarca não estava mais chorando. Ela estava reclinada contra os travesseiros, os olhos fixos na porta, os lábios desenhando um sorriso frio, satisfeito e absoluto.
Os músculos das costas de Vicente travaram instantaneamente. O radar de ameaça dele, treinado por uma década na presidência de um mercado selvagem, disparou.
— Onde ela está? — a voz dele saiu baixa, um barítono perigosamente calmo que faria qualquer membro do conselho recuar dois passos.
— A sua costureira? — Carmem ajeitou o lençol branco sobre o colo, sem pressa. — Ela foi embora, Vicente. Parece que o estômago dela não é forte o suficiente para lidar com as fundações da nossa família.
Vicente cruzou o espaço entre a porta e a cama em duas passadas brutais. Ele não se importou com os acessos venosos ou com o monitor cardíaco. Ele bateu as duas mãos com força na grade de metal da cama, o impacto fazendo a estrutura inteira sacudir. Carmem piscou, assustada pela violência física repentina, mas não perdeu a pose.
— O que. Você. Disse. Para ela? — Ele silabou cada palavra, o rosto a centímetros do da mãe, a fúria escura nos olhos dele ameaçando rasgar o pescoço dela ali mesmo.
— Apenas a verdade que você escondeu tão bem debaixo dos lençóis — Carmem rebateu, erguendo o queixo, recusando-se a ser intimidada pelo próprio sangue. — Eu contei sobre o laudo pericial comprado. Contei como o contador Roberto Gomes foi descartado na rodovia Dutra para não vazar os desvios da construtora. E, claro, fiz questão de explicar a ela que você sempre soube disso. Que você mapeou o risco, trouxe a garota para perto e a transformou em um cachorrinho manso para garantir que a sujeira continuasse enterrada.
O mundo de Vicente parou de girar por um segundo.
A respiração dele falhou. A mentira da mãe era uma obra de arte da psicopatia. Vicente só havia descoberto a verdade sobre o assassinato do contador há dois dias, quando começou a rastrear os fundos congelados de Carmem e encontrou os pagamentos feitos à Polícia Rodoviária anos atrás. Ele ia contar a Lívia. Ia entregar as provas para a corregedoria assim que a tirasse do fogo cruzado da mídia. Mas Carmem antecipou a jogada, torceu a linha do tempo e transformou a proteção dele na pior traição possível.
Lívia achava que ele a usou. Achava que o toque dele era manchado com o sangue do pai dela.
Vicente soltou a grade da cama com um empurrão violento, recuando. O nojo que ele sentia da mulher deitada ali era físico, palpável.
— Se alguma coisa acontecer com ela nas ruas esta noite — a voz dele soou como cascalho triturado, carregada de uma frieza de necrotério —, eu juro pela minha vida, Carmem, eu não vou usar a polícia ou a CVM. Eu mesmo acabo com você. E não vai sobrar dinheiro no mundo para pagar o seu velório.
Ele não esperou a resposta. Girou nos calcanhares e saiu do quarto quase correndo. No corredor, ele puxou o telefone aos tropeços, os dedos apertando a tela com brutalidade. Ele discou para o chefe da equipe de segurança armada da holding.
— Costa. Acorda toda a equipe do turno de folga. Agora. A Lívia fugiu do hospital Sírio-Libanês a pé. Quero rastreamento de câmeras de trânsito em um raio de cinco quilômetros. Cortem os acessos da Rodoviária do Tietê, da Barra Funda e do Jabaquara. Mandem homens à paisana para o aeroporto de Congonhas. Ninguém dorme até colocarem ela dentro do meu carro.
Vicente desceu pelo elevador de emergência, ignorando a equipe médica. Ele entrou na sua SUV blindada, despachou o motorista particular e assumiu o volante. A chuva açoitando o para-brisa era apenas um detalhe enquanto ele afundava o pé no acelerador, cantando pneu na saída do estacionamento. A mente dele girava, calculando rotas, eliminando possibilidades.
Ela não tinha cartão de crédito ativo. O ateliê estava destruído. O apartamento que ela dividia estava marcado pelos jornalistas. Havia apenas um porto seguro naquele oceano de caos.
Ele girou o volante com força, invadindo a faixa contrária para pegar o acesso à região central de Santa Cecília. O motor V8 urrou contra a tempestade.
O relógio marcava quatro e vinte da manhã quando a SUV preta subiu na calçada em frente à Paróquia de São Judas. Vicente não se importou com a multa ou com o pneu raspando no paralelepípedo. Ele chutou a porta blindada, a chuva ensopando a camisa fina instantaneamente, e correu pelas escadas de pedra gasta.
As pesadas portas de madeira da igreja estavam trancadas. Ele bateu com o punho fechado, a madeira maciça machucando os nós dos dedos já esfolados pelas algemas, o som ecoando pela rua vazia como tiros. Ele bateu de novo. E de novo. Disposto a arrombar a fechadura a chutes se fosse necessário.
Um estrondo metálico soou por dentro. A tranca pesada deslizou, e a porta foi puxada alguns centímetros para dentro. A fresta revelou o rosto duro, vincado e sem um pingo de paciência do Padre Tomás. O sacerdote usava roupas comuns de frio sobre os ombros curvados e não parecia assustado com a figura maníaca de Vicente encharcado na entrada.
— Essa não é hora de procurar a salvação, rapaz. A casa está fechada — Tomás disse com a voz áspera, preparado para fechar a porta na cara do bilionário.
Vicente espalmou a mão na madeira, segurando a porta com força bruta.
— Cadê ela? — A voz dele estava tão rouca que falhou no meio da frase. A água da chuva escorria pelo cabelo grudado na testa e pingava no chão de pedra. — Eu sei que ela veio para cá. Não mente para mim, padre.
Tomás sustentou o olhar do CEO. A diferença de tamanho e de poder financeiro entre os dois era abissal, mas dentro daquele terreno, a gravidade funcionava de outro jeito. O velho cruzou os braços.
— Você invadiu a frente da minha paróquia dois dias atrás com esse seu tanque de guerra e arrastou a Lívia para dentro do seu circo. O resultado está em todos os jornais. O nome do pai dela na lama, a honra dela moída pelos seus acionistas. O que mais você quer tirar dessa menina? A alma?
— Eu preciso falar com ela. É mentira. Tudo o que a Carmem disse no hospital foi forjado para afastar ela de mim — Vicente implorou, a autoridade corporativa sumindo completamente, dando lugar a um desespero rasgado e visceral. Ele deu um passo para forçar a entrada. — Me deixa explicar para ela. Deixa eu mostrar os documentos.
O padre não recuou. O olhar dele era uma muralha intransponível.
— Explicar o quê? Que o seu dinheiro sujo matou o único homem que a protegeu na infância? Que você colocou a cabeça dela na guilhotina e deixou a sua mãe puxar a corda? — Tomás apontou o dedo calejado para o peito de Vicente. — Você é uma doença na vida dela, Vicente. Gente como você não ama, gente como você destrói e compra móveis novos para colocar por cima das cinzas.
A respiração de Vicente tornou-se errática. O peito subia e descia violentamente. Ele não estava acostumado a ouvir a palavra "não". Mas ali, com a água escorrendo pelo rosto, ele se viu completamente impotente.
— Se ela ficar sozinha na rua sem proteção, os advogados da minha mãe vão encontrá-la e apagar qualquer vestígio dela. Você não entende do que eles são capazes! — Vicente elevou a voz, o desespero batendo no teto. — Me diz para onde você mandou ela. Eu juro que não encosto nela se ela não quiser, mas eu preciso botar uma equipe de segurança atrás do ônibus. Padre, pelo amor de Deus!
Padre Tomás sustentou o silêncio por dez longos segundos, ouvindo apenas o barulho da tempestade açoitando o telhado da velha igreja.
O velho balançou a cabeça devagar, o maxilar endurecido pela decisão irrevogável.
— Você já tirou tudo o que a Lívia tinha, meu filho. A vida que restou, você não vai tocar. — Ele agarrou a borda da porta pesada. — Ela foi para onde o seu dinheiro não pode comprar a verdade. Esquece que ela existe, se você tiver um pingo de humanidade dentro desse peito de ferro.
E então, com um estrondo absoluto, o padre bateu a porta de madeira maciça direto na cara de Vicente, e o barulho da tranca de aço girando cortou qualquer esperança de resgate.
Comentários
Postar um comentário