O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 16

Capítulo 16: O Fio da Mentira

O cheiro de cera derretida, mofo e terra úmida era a única coisa que mantinha Lívia ancorada na realidade. O porão da Paróquia de São Judas era um buraco de concreto esquecido no tempo, usado pelo Padre Tomás para empilhar doações velhas e arquivos mortos da igreja. Não havia janelas, apenas um pequeno exaustor enferrujado que trazia o som abafado e violento da tempestade que açoitava a cidade de São Paulo lá fora.

Lívia estava sentada no chão de cimento frio, com as costas apoiadas contra uma estante de metal torta. A blusa de flanela molhada grudava na pele, congelando os músculos dos seus ombros, mas ela não sentia o frio físico. O que a fazia tremer de forma incontrolável era o veneno que Carmem Albuquerque havia injetado diretamente na sua corrente sanguínea.

"Ele sabia de cada gota de sangue no asfalto."

A frase martelava o crânio de Lívia, ricocheteando nas paredes do porão. Ela abraçou os próprios joelhos, cavando as unhas no tecido áspero da calça jeans até os dedos doerem. A imagem de Vicente — o rosto dele exausto na cela da delegacia, a forma como ele rosnou para os policiais protegendo-a, a intensidade possessiva com que a tocou no escuro daquele apartamento invisível — tudo aquilo se retorcia, transformando-se em uma aberração grotesca.

Ele a transformou em um projeto de controle de danos. O bilionário calculista descobriu que a filha do homem assassinado por sua empresa estava por perto, comprou o ateliê, esfregou o próprio poder na cara dela e a puxou para a sua cama. Tudo para garantir que a herdeira da fraude ficasse cega, domesticada e grata pelas migalhas. A humilhação queimava a garganta de Lívia como ácido de bateria. Ela foi a peça mais estúpida e barata no tabuleiro daquela família de psicopatas.

O som das dobradiças enferrujadas da porta de ferro no topo da escada cortou o silêncio. Passos lentos e pesados começaram a descer os degraus de concreto.

Lívia não levantou a cabeça. Ela sabia que era o Padre Tomás.

O velho sacerdote terminou de descer a escadaria carregando uma caneca de cerâmica lascada fumegante e uma manta grossa de lã escura pendurada no ombro. Ele parou diante dela, o rosto vincado pela exaustão e pela dureza da noite. Sem dizer uma palavra, ele jogou a manta sobre a cabeça de Lívia e entregou a caneca quente nas mãos trêmulas dela.

— O café está amargo, mas vai impedir que você tenha uma hipotermia — o padre murmurou, a voz grave e seca. Ele puxou um caixote de madeira vazio e sentou-se de frente para ela, sob a luz fraca e amarelada da única lâmpada incandescente do porão.

Lívia segurou a cerâmica quente. O calor atravessou a pele gelada das suas mãos, mas não alcançou o nó de ferro no seu estômago.

— Ele veio bater na sua porta, não veio? — a voz dela soou rouca, um fiapo de som que mal arranhou o silêncio do porão.

Tomás suspirou pesadamente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Apareceu na porta da frente como o próprio diabo. Totalmente ensopado, os nós dos dedos esfolados de tanto esmurrar a madeira da paróquia. Se eu não tivesse aberto a fresta, ele teria jogado o carro blindado dele contra a entrada da igreja.

Lívia fechou os olhos com força, uma lágrima quente escorregando pelo rosto sujo de poeira e chuva. O cinismo de Vicente era tão profundo que ele se dava ao trabalho de caçá-la na tempestade só para não perder o controle do passivo trabalhista que ela representava.

— O senhor não disse que eu estou aqui embaixo — ela afirmou, apertando a manta em volta dos ombros.

— Eu disse a ele para esquecer que você existe. — O padre cravou o olhar escuro nela, a postura intransigente de quem conhecia a maldade humana de perto. — E eu bati a porta na cara dele antes que ele tentasse me comprar. Eu te conheço desde que você era uma menina assustada com as calças rasgadas, Lívia. Quando você entrou correndo por aquela porta dos fundos hoje, com esse olhar de quem acabou de ver um cadáver, eu não precisava de detalhes. O mundo daquela família não serve para você. Ficar perto deles é assinar a própria sentença.

— Eles mataram o meu pai. — Ela cuspiu as palavras de uma vez só. O som da própria voz admitindo aquilo em voz alta fez o porão parecer encolher. — Não foi aquaplanagem, Padre. Não foi um pneu estourado na Dutra. A Carmem encomendou a morte dele para cobrir os desvios da construtora, e depois pagou um dossiê para jogar o nome dele na lama. E o Vicente... o Vicente me usou como cortina de fumaça.

O padre não demonstrou surpresa. O rosto dele, endurecido pelos anos ouvindo confissões no centro de São Paulo, apenas ganhou uma sombra mais letal. Ele se levantou do caixote lentamente, as articulações estalando.

— O seu pai não era um santo, Lívia, mas ele também não era um ladrão. Ele era um homem desesperado que enfiou a mão num ninho de cascavéis — Tomás caminhou até o fundo do porão, onde prateleiras de ferro sustentavam dezenas de caixas de arquivo morto. — Quando a polícia liberou os pertences do carro retorcido quinze anos atrás, a sua mãe não teve forças para olhar para nada. Ela ia jogar tudo no lixo. Eu trouxe as coisas dele para cá e guardei. Achei que um dia você seria adulta o suficiente para tentar entender a morte do velho.

Ele arrastou uma caixa de papelão grossa, coberta por uma camada espessa de poeira cinzenta, e a colocou no chão, bem no centro do círculo de luz amarela.

— Toma seu café. Respira. Eu vou trancar as portas de cima e passar a corrente no portão do pátio. Hoje, ninguém entra nessa igreja. — O padre deu as costas para ela e subiu as escadas, deixando Lívia sozinha com o fantasma do passado.

O silêncio voltou a ser absoluto. Lívia encarou a caixa de papelão como se fosse uma bomba prestes a detonar. O seu pulso acelerou. O pânico de reviver o luto brigava com a fúria cega que a dominava.

Ela deixou a caneca de café no chão. Com as mãos trêmulas, puxou a caixa para perto e abriu as abas de papelão. O cheiro de papel velho e couro ressecado atingiu seu rosto. Lá dentro, estava a velha pasta executiva de couro sintético que o pai levava para o escritório todos os dias. Havia também a carteira dele, um relógio de pulso quebrado com o vidro estilhaçado e uma pilha de jornais da época, amarrados com barbante.

Lívia puxou a pilha de jornais e a pasta. Ela espalhou o conteúdo no chão frio de ardósia, ignorando a poeira que grudava nas mãos molhadas.

O primeiro documento que seus olhos focaram foi a cópia do Boletim de Ocorrência da Polícia Rodoviária, o mesmo que atestava o acidente. Ela correu os olhos pelas linhas datilografadas, as letras borradas pelo tempo. A narrativa oficial da aquaplanagem. A data do óbito estava cravada ali, em caixa alta: **12 DE OUTUBRO DE 2011. HORÁRIO DO ÓBITO: 23H45.**

Carmem havia dito no hospital: "Chovia muito naquela noite na rodovia Dutra. Um pneu dianteiro estourado na curva da serra... O seu pai foi extirpado."

Lívia puxou o laudo pericial. As mãos dela suavam. Ela abriu a carteira do pai. Os cartões de crédito antigos, a foto 3x4 dela mesma quando era criança. E, dobrado no fundo do compartimento de notas, um pedaço de papel térmico, daqueles usados em máquinas de cartão, quase completamente apagado pelo tempo.

Ela levou o papel para perto da lâmpada, semicerrando os olhos para tentar decifrar a tinta desbotada. Era um comprovante de pedágio da Rodovia Dutra. Mas não era o posto de pedágio próximo à curva da serra onde o carro capotou. Era o pedágio de saída de São Paulo, no sentido oposto.

Lívia franziu a testa. O coração deu um salto perigoso no peito. Ela focou na data impressa no comprovante.

A respiração dela parou.

O comprovante do pedágio marcava o dia **14 DE OUTUBRO DE 2011. HORÁRIO: 15H30.**

Lívia piscou freneticamente, esfregando os olhos, achando que a poeira e a exaustão estavam pregando peças na sua mente. Ela olhou para o Boletim de Ocorrência novamente. Óbito: 12 de outubro. Ela olhou para o comprovante do pedágio na mão do pai. 14 de outubro.

Não. Não fazia sentido. O carro do pai dela estava destruído, guinchado no pátio da polícia desde a noite do dia 12. Como o comprovante de pedágio com a placa do carro dele estava impresso dois dias depois, à luz da tarde, indo em direção ao Rio de Janeiro?

As mãos de Lívia começaram a tremer. Ela largou o recibo e puxou a tesoura enferrujada que o padre usava para cortar barbante, cortando a amarração dos jornais antigos. O Padre Tomás guardara os exemplares do Correio Paulistano da semana inteira da morte do pai dela.

Ela abriu a edição do dia 13 de outubro. Manchete menor na contracapa: "Grave acidente na Dutra faz vítima fatal na madrugada." A foto do carro do pai dela retorcido na mureta. Tudo batia com a mentira oficial. Tudo batia com a morte forjada.

Mas Lívia continuou folheando. Ela pegou a edição de domingo, dia 16 de outubro. A capa do caderno de Economia estampava o rosto de Carmem Albuquerque. O título da matéria rasgou o ar do porão como uma facada.

"ALBUQUERQUE HOLDING ANUNCIA SUCESSÃO PRECIPITADA: O JOVEM VICENTE ALBUQUERQUE ASSUME O COMANDO APÓS ESCÂNDALO INTERNO."

Lívia correu os olhos pela matéria, a leitura frenética. A reportagem descrevia como um auditor terceirizado havia vazado anonimamente documentos comprovando a lavagem de dinheiro da construtora para o Ministério Público no final da tarde do dia 14 de outubro, forçando a família Albuquerque a trocar a presidência para evitar a prisão do marido de Carmem.

A ficha não apenas caiu; ela desabou com o peso de uma bigorna.

O pai dela não morreu no dia 12. O acidente na rodovia foi forjado por Carmem para calá-lo. Mas o pai dela sobreviveu à emboscada da Dutra. Ele escapou. E, ciente de que seria morto, ele pegou o que sobrou do carro — ou outro veículo clonado com a mesma placa — passou pelo pedágio no dia 14 e entregou o dossiê que destruiu a velha guarda dos Albuquerque, forçando o jovem Vicente a assumir o império para limpar a sujeira.

Mas e o cadáver? E o corpo que a mãe dela enterrou no caixão fechado dias depois?

Lívia sentou-se sobre os calcanhares, a mente girando em um curto-circuito violento. Carmem mentiu no hospital. Ela não matou o pai de Lívia na rodovia. A matriarca tentou, mas falhou.

O que significava que Vicente não assumiu o controle de um império pacificado. Ele assumiu uma empresa em chamas porque o pai de Lívia jogou a bomba.

E a grande pergunta que fez o sangue de Lívia gelar nas veias: se o pai dela sobreviveu à rodovia no dia 12 para denunciá-los no dia 14... quem ordenou a morte definitiva dele nos dias que se seguiram? Carmem, que já havia perdido a presidência?

Ou o novo CEO de vinte e cinco anos que precisava apagar o incêndio antes de perder o seu recém-adquirido império?

O som do celular velho dela começou a vibrar violentamente dentro do bolso da calça jeans. A tela rachada acendeu no escuro do porão. O número na tela não era conhecido. Não era o advogado Roberto. Não era Vicente.

Era um número restrito.

Lívia encarou a tela piscando, as mãos sujas de poeira e passado, sabendo que atender aquele telefone mudaria o curso daquela noite para sempre.


🗣️ As datas não batem! Se o pai de Lívia sobreviveu à armadilha da Carmem, quem terminou o serviço? O telefone tocando é o perigo batendo na porta. Quem você acha que está do outro lado da linha? Deixe seu palpite nos comentários!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 01

Ativos Tóxicos: Temporada 1 – Capítulo 01

Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 02