O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 17

Capítulo 17: Forjada a Fogo

O aparelho celular continuava vibrando no chão de ardósia do porão, deslizando alguns milímetros a cada zumbido. O número restrito piscava na tela trincada, emitindo um brilho espectral que iluminava a papelada amarelada espalhada ao redor de Lívia. O instinto de sobrevivência, moldado pelo terror das últimas quarenta e oito horas, exigia que ela esmagasse o telefone com o calcanhar. Podia ser a segurança privada de Carmem. Podia ser a polícia.

Mas a raiva que agora queimava em suas veias era maior que o medo. Lívia não era mais a garota assustada que fugiu do ateliê. A descoberta daquelas datas divergentes nos recibos de pedágio do seu pai havia virado uma chave enferrujada no seu cérebro. Alguém estava mentindo, e ela estava farta de correr no escuro.

Ela esticou a mão suja de poeira e atendeu a chamada, levando o aparelho ao ouvido com a lentidão de quem engatilha uma arma.

— Alô? — a voz de Lívia soou cortante, árida e desprovida de qualquer hesitação.

O som do outro lado da linha era uma respiração ofegante, abafada pelo ruído de trânsito pesado.

Lívia? Pelo amor de Deus, não desliga! — A voz esganiçada e rasgada de exaustão pertencia a Roberto, o advogado corporativo de Vicente. — Eu estou rodando o centro de São Paulo inteiro atrás de você faz três horas! O Vicente colocou a equipe tática inteira da empresa na rua. Ele está virando a cidade do avesso para te achar.

O nome de Vicente fez o estômago de Lívia afundar como uma bigorna de chumbo. A imagem dele no hospital, de costas, ditando as regras do império construído sobre os ossos da família dela, piscou na sua mente.

— Avisa para o seu chefe cancelar a busca, Roberto. Eu não sou mais um problema para a holding — ela rebateu, o sarcasmo pingando como veneno. — A mãe dele já me contou a verdade no hospital. Eu vi os jornais do meu pai aqui no porão. O Vicente sempre soube que a família dele encomendou o assassinato na rodovia Dutra. Ele só me trouxe para a cama dele para garantir que a filha do contador não fosse fuçar o esgoto do passado e desvalorizar a empresa.

Um silêncio abissal caiu sobre a linha, quebrado apenas pelo som de uma buzina distante.

O quê? — Roberto pareceu engasgar com a própria saliva. A confusão na voz dele era tão crua que não poderia ser teatro. — Lívia, você perdeu o juízo? Que merda de história é essa? O Vicente não sabia de porra nenhuma!

— Não me chama de idiota, Roberto! A Carmem confirmou...

A Carmem é uma psicopata que torce a realidade para salvar a própria pele! — Roberto berrou no telefone, perdendo completamente a postura de advogado de luxo. — Ouve o que eu estou te dizendo, caralho! O Vicente assumiu a empresa com vinte e cinco anos para abafar um rombo fiscal, mas o conselho antigo enterrou a história do acidente do seu pai como um simples sinistro de trânsito! Ele só descobriu que foi homicídio encomendado há dois dias!

O ar no porão pareceu rarefeito. Lívia travou, os dedos apertando o celular com tanta força que o plástico estalou.

Dois dias, Lívia! — Roberto continuou, a voz atropelando as palavras na urgência de estancar o sangramento. — Quando a mãe dele começou a te atacar no evento, o Vicente colocou a minha equipe para auditar as contas pessoais da Carmem na surdina. Nós cruzamos os saques em dinheiro vivo de 2011 com as escalas de plantão da Polícia Rodoviária Federal. Foi ali que ele viu o que a mãe dele tinha feito. Foi por isso que ele mandou congelar os cartões dela ontem de manhã! A guerra não começou por ego. Começou porque ele descobriu que a própria família tinha matado o seu pai, e ele estava tentando blindar você antes de entregar a mãe para a polícia!

O impacto daquelas palavras atingiu Lívia com a força de um acidente de carro.

Ela parou de respirar. A mente dela rebobinou as últimas horas em velocidade absurda. Vicente não a estava usando como cortina de fumaça; ele estava servindo de escudo. A violência, o desespero nos olhos dele na cela da delegacia, o ódio com que ele tratou Carmem no hospital... não era teatro corporativo. Era a revolta de um homem que preferia explodir o próprio legado a deixar a mulher que amava ser esmagada pelas engrenagens sujas dele. E Carmem, com a genialidade distorcida de uma aranha viúva-negra, havia percebido isso. A matriarca jogou a meia verdade no colo de Lívia no hospital sabendo que isso a faria fugir, deixando Vicente completamente isolado.

Lívia caiu sentada no chão de concreto, o impacto reverberando na base da espinha. O choro que ela vinha segurando rasgou a sua garganta, um soluço feio, seco, misturando culpa, alívio e uma fúria avassaladora. Ela havia caído na armadilha de Carmem como uma presa estúpida.

Lívia, você ainda está aí? — Roberto chamou, a voz tensa.

— Estou. — Ela engoliu a bile, limpando o rosto sujo de poeira e lágrimas com as costas da mão. O tom dela mudou. A fragilidade evaporou, dando lugar à frieza do aço. — Onde o Vicente está agora?

Ele está trancado no prédio da holding, na Avenida Faria Lima. E ele enlouqueceu de vez. — O advogado respirou fundo, o som de um motor acelerando indicando que ele continuava dirigindo. — Ele acha que a mãe afugentou você e que nós não vamos te achar viva. Ele marcou uma assembleia extraordinária de acionistas para as oito da manhã de hoje. Lívia... ele ativou a cláusula de liquidação total. Ele vai transferir cem por cento das ações majoritárias que pertencem à família para fundos abutres internacionais e entregar todas as patentes de infraestrutura para o Estado a preço de custo.

A espinha de Lívia gelou.

— Ele vai destruir a empresa inteira... — ela murmurou, aterrorizada com a escala da vingança.

Ele vai pulverizar a holding para garantir que a Carmem termine a vida pedindo esmola, mas isso é suicídio financeiro e jurídico! O conselho pode acionar a CVM e mandar ele de volta para a cadeia por fraude de mercado! Ele vai se destruir junto, Lívia! Eu não consigo entrar no prédio, a segurança barrou todo mundo a mando dele. Você é a única pessoa que ele vai deixar entrar naquela sala. Pelo amor de Deus, me diz onde você está que eu te busco agora!

Lívia olhou para o relógio na tela trincada do celular. Seis e dez da manhã. A assembleia era às oito.

— Eu não estou longe da Paulista. Eu pego um táxi — ela mentiu de forma instintiva. Não queria arrastar o Padre Tomás para o meio daquele tiroteio. — Encontra comigo na portaria do prédio dele em quarenta minutos. Manda os capangas dele recuarem.

Ela encerrou a ligação antes que o advogado pudesse discutir. O silêncio do porão voltou, mas agora não era mais opressivo. Era o silêncio de quem se prepara para a guerra.

Lívia levantou do chão. O corpo inteiro doía pela noite no cimento frio, mas a adrenalina purificava a exaustão. Ela recolheu os jornais antigos, o laudo falso, o recibo do pedágio e jogou tudo dentro da sua mochila de lona gasta.

Ela subiu as escadas de concreto aos tropeços. Quando abriu a porta de ferro do térreo, a luz azulada e fria da manhã já invadia a sacristia da paróquia. A tempestade havia passado, deixando para trás um frio cortante e o cheiro de asfalto molhado. O Padre Tomás não estava ali; provavelmente já estava preparando a igreja para a primeira missa do dia.

Lívia caminhou até o pequeno lavabo nos fundos da sacristia. Ela empurrou a porta de madeira e parou na frente do espelho rachado acima da pia de cerâmica amarelada.

O reflexo que a encarou de volta a chocou por um segundo. A maquiagem borrada do dia do evento havia sumido. O cabelo estava preso de qualquer jeito. A camisa de flanela, outrora gigante, agora pendia sobre ombros rígidos. O estresse brutal dos últimos dias a havia secado, mas pela primeira vez na vida, Lívia não se sentiu minguar. O quadril largo, a barriga que ela tanto odiava e tentava esconder de Carmem, nada daquilo importava. A mulher no espelho tinha olhos escuros, perigosos e absolutamente focados. Ela não era mais uma vítima inadequada tentando se encaixar no mundo dos bilionários; ela era a porra do meteoro que iria colidir com eles.

Com movimentos duros e mecânicos, ela abriu a torneira, deixando a água gelada escorrer, e lavou o rosto com violência, arrancando o resto de poeira e autocomiseração. Ela secou o rosto na flanela da blusa. Abriu a mochila de lona e puxou o pequeno frasco escuro lá de dentro.

Ela abriu a tampa. Não havia hesitação. Não havia insegurança barata. Tomar aquela cápsula para o emagrecimento agora não era sobre estética ou submissão; era um rito de passagem. Era o combustível que blindava sua mente e afinava seus sentidos, a prova táctil de que ela havia assumido as rédeas do próprio corpo, da própria biologia e do próprio destino. Lívia jogou a cápsula na boca e engoliu com um gole direto da torneira. A água fria desceu rasgando, ativando cada terminação nervosa, aliviando a ansiedade sufocante no peito e trocando-a por uma letalidade cirúrgica. Ela se sentia leve. Rápida. Implacável.

Ela fechou o zíper da mochila, jogou-a sobre o ombro e marchou em direção à porta lateral da paróquia.

Quando Lívia pisou na calçada de Santa Cecília, a cidade já roncava com os ônibus lotados e buzinas impacientes. Ela andou rápido até a avenida principal. Viu um táxi livre se aproximando, jogou-se para o asfalto e balançou o braço com urgência.

O carro amarelo parou bruscamente. Ela abriu a porta traseira e se jogou no banco de vinil rachado.

— Para onde, moça? — o motorista idoso perguntou, assustado com a ferocidade da passageira.

— Avenida Brigadeiro Faria Lima, cruzamento com a Juscelino. Prédio da Albuquerque Holding. — O tom de Lívia não abria margem para conversa. Ela tirou a única nota de cem reais amassada do bolso e jogou no console central do carro. O dinheiro de sua comida da semana inteira. — O senhor pode furar sinal vermelho, pode cortar caminhão e andar pelo acostamento. Só não deixa dar oito da manhã antes de eu pisar na calçada daquele prédio. Se a gente atrasar, o senhor perde a corrida. Acelera!

O motorista engoliu a seco, engatou a marcha e afundou o pé no acelerador, lançando o carro no caos do trânsito de São Paulo. Lívia encostou a cabeça no vidro, observando o asfalto correr. A caçada acabou. Agora, a guerra era dela.


🗣️ Que virada! Vicente nunca foi o vilão, mas agora está prestes a perder tudo. Lívia vai conseguir chegar a tempo de parar a assembleia? Deixe seu palpite nos comentários!

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