O Preço do Meu Silêncio - Temporada 1 - Capítulo 18

Capítulo 18: A Dona do Tabuleiro

O pneu do táxi raspou violentamente contra o meio-fio da Avenida Faria Lima, o som estridente da borracha cantando no asfalto fazendo os engravatados na calçada pularem para trás. Lívia não esperou o carro parar completamente. Ela empurrou a porta de vinil amassada e saltou para a rua, o vento gelado da manhã batendo contra o seu rosto suado. O relógio digital no topo de um prédio espelhado do outro lado da avenida marcava 07:53.

Ela ergueu a cabeça. O edifício sede da Albuquerque Holding era um monólito de vidro fumê e aço escovado que perfurava o céu cinzento de São Paulo. Não era apenas um prédio; era uma fortaleza financeira, uma máquina desenhada para esmagar a concorrência e vomitar lucro. E lá no topo, no quinquagésimo andar, o homem que comandava aquela máquina estava prestes a explodir o próprio reator nuclear.

Lívia ajeitou a mochila de lona no ombro e marchou em direção às catracas. As pernas doíam pela noite no cimento do porão, mas a adrenalina bombeava querosene direto nas suas veias. Ela cruzou as pesadas portas giratórias de cristal, o barulho caótico do trânsito sendo imediatamente substituído pelo zumbido asséptico e opressivo do ar-condicionado central.

O saguão principal estava um pandemônio silencioso. Homens e mulheres de ternos caríssimos andavam de um lado para o outro com telefones colados nas orelhas, os rostos pálidos, observando os telões de LED que já mostravam o pré-mercado derretendo o valor das ações da empresa. O pânico cheirava a café expresso caro e suor contido.

Na base das catracas de segurança, uma muralha de seguranças particulares vestidos de preto bloqueava os acessos. Perto deles, esfregando a testa com ambas as mãos e andando em círculos, estava o advogado Roberto.

— Roberto! — Lívia gritou, a voz cortando o murmúrio do lobby.

O advogado virou o pescoço num estalo. O alívio que lavou o rosto dele foi tão visceral que ele quase tropeçou nos próprios sapatos de couro para chegar até ela.

— Graças a Deus — ele soltou a respiração de uma vez só, agarrando o braço dela sem qualquer formalidade. Ele não comentou as roupas amassadas, o cabelo bagunçado ou a cara de exaustão de Lívia. Ele apontou para os seguranças. — Abre a cancela executiva! Agora!

Os seguranças liberaram a passagem estreita. Roberto puxou Lívia em direção a um elevador isolado no fundo do saguão, com portas de aço escovado e sem botões de chamada. Ele passou o crachá no leitor e a cabine engoliu os dois em um segundo.

— Qual é a situação lá em cima? — Lívia perguntou, a voz saindo dura, o olhar fixo no visor digital que contava os andares subindo em velocidade alucinante.

— Uma carnificina. — O advogado passou a mão pelo cabelo, os olhos arregalados, a compostura corporativa completamente destruída. — A Carmem não apareceu, o que significa que os advogados de defesa criminal dela já devem estar negociando um acordo com o Ministério Público para não ser presa hoje à tarde. E o Vicente perdeu o último pingo de sanidade que restava nele. A sala de reuniões está lotada com o conselho majoritário e os executivos de um fundo abutre de Singapura. Eles trouxeram os contratos impressos. O Vicente está literalmente transferindo sessenta por cento do controle acionário a preço de banana podre. Ele vai implodir a fortuna da família e entregar a infraestrutura nacional de bandeja para os asiáticos.

Lívia travou o maxilar, a imagem da matriz da empresa pegando fogo tornando-se palpável.

— Ele acha que a culpa da minha fuga é dele. A mãe jogou a granada no meu colo e fez parecer que o Vicente apertou o gatilho. E agora ele está castigando a própria empresa para castigar a família que causou isso.

— Lívia, se ele assinar aquele papel, a holding desaba. Mais de oito mil funcionários perdem o emprego direto. A CVM abre inquérito contra ele por gestão temerária amanhã de manhã. Você é a única pessoa na face da Terra que ele vai escutar agora.

O elevador deu um solavanco suave e as portas se abriram no quinquagésimo andar.

O cenário do andar da presidência era tenso como a corda de um piano prestes a arrebentar. O piso de madeira nobre não produzia eco. O longo corredor terminava em um conjunto de portas duplas de carvalho maciço, guardadas por dois homens que pareciam armários embutidos de terno.

— Ele barrou qualquer pessoa que não estivesse na lista da assembleia — Roberto sussurrou, parando a dez metros das portas.

Lívia não diminuiu o passo. Ela caminhou direto para as portas duplas, a mochila de lona balançando no ombro. Os dois seguranças cruzaram os braços na frente das maçanetas de latão, bloqueando a passagem.

— Reunião fechada, senhora. Ninguém entra.

Lívia não recuou um milímetro. Ela olhou para o segurança da direita com a frieza de quem passou a noite em um porão escuro desenterrando cadáveres.

— O homem que paga o seu salário está do outro lado dessa porta cometendo suicídio corporativo — ela disse, a voz num tom perigosamente baixo. — Se você não me deixar entrar agora para impedi-lo, a sua rescisão trabalhista não vai ter dinheiro na conta amanhã de manhã. Abre. Essa. Porta.

A fúria absoluta e inquebrável no rosto daquela mulher de calça jeans e blusa molhada desarmou o profissional. Ele olhou para Roberto, que apenas acenou freneticamente com a cabeça. O segurança engoliu a seco e empurrou as maçanetas de carvalho.

Lívia invadiu a sala do conselho.

O ambiente era imenso, banhado pela luz fria que entrava pelos vidros panorâmicos com vista para toda a cidade de São Paulo. Uma mesa de vidro e aço escovado de doze metros de comprimento dominava o centro. Dezenas de senhores de terno cinza, os membros do conselho, estavam de pé, pálidos, suando frio, alguns gritando com os advogados dos asiáticos que estavam sentados, perfeitamente alinhados e silenciosos, no lado esquerdo da mesa.

Na cabeceira, alheio ao barulho e ao pânico generalizado, estava Vicente Albuquerque.

A visão dele fez o coração de Lívia bater na base da garganta. Ele não parecia um bilionário vencendo uma guerra. Ele parecia um soldado que havia perdido tudo o que importava e estava prestes a explodir a trincheira. O terno estava jogado de qualquer jeito sobre o encosto da cadeira. A camisa branca estava com as mangas enroladas sobre os antebraços fortes, revelando a pele ainda vermelha da fricção das algemas da noite anterior. Ele estava debruçado sobre um calhamaço de contratos grossos, com uma caneta-tinteiro preta entre os dedos, assinando página por página com uma brutalidade fria, ignorando os protestos do seu próprio conselho financeiro.

A entrada de Lívia não foi silenciosa, mas a visão dela no meio daquela sala estéril era tão absurda que os gritos morreram imediatamente. Os velhos do conselho pararam de falar. Os asiáticos franziram a testa.

O silêncio súbito fez Vicente parar a caneta. Ele não levantou a cabeça de imediato, a irritação estampada na mandíbula travada.

— Eu falei que o próximo que abrisse a boca estaria demitido por justa causa — ele rosnou, o olhar ainda cravado no papel.

— Abaixa essa caneta, Vicente.

A voz de Lívia não tremeu. Cortou o ar condicionado da sala como vidro moído.

O corpo de Vicente congelou. A caneta-tinteiro escorregou dos dedos dele e bateu no vidro da mesa com um barulho seco, derramando uma gota de tinta preta sobre o contrato milionário. Ele levantou a cabeça em um tranco violento, como se tivesse levado um choque de alta voltagem.

Os olhos escuros dele encontraram os de Lívia no outro extremo da mesa de doze metros. O abismo negro no olhar dele rachou ao meio. O choque, a incredulidade e um desespero aliviado explodiram na postura do CEO. Ele empurrou a pesada cadeira de couro para trás com tanta força que ela capotou no chão, e ele ficou de pé, o peito subindo e descendo freneticamente.

— Lívia... — o nome dela saiu num sussurro arranhado. Ele deu o primeiro passo na direção dela, ignorando sessenta pessoas na sala, ignorando os bilhões em cima da mesa. Ele estava prestes a cruzar a distância para agarrá-la, mas a postura rígida dela o freou.

Lívia caminhou a passos firmes pela lateral da mesa. Ela não olhou para os acionistas engravatados. Não olhou para os estrangeiros. O mundo inteiro sumiu, reduzido apenas ao homem que estava destruindo a própria vida por ela.

Ela parou a um metro de distância dele.

— O que você está fazendo aqui? — a voz dele falhou, a barreira de fúria corporativa derretendo completamente na frente dela. — A Carmem me disse que você tinha ido embora. A segurança da paróquia me barrou... Eu achei que eles tivessem chegado até você.

— Eu fugi porque a sua mãe transformou a minha vida num matadouro e eu não sabia mais quem estava segurando a faca — ela disparou, jogando a mochila de lona suja em cima dos contratos de liquidação, quase derrubando o tinteiro. — Ela me disse que você sabia que o acidente do meu pai tinha sido forjado. Ela tentou me convencer de que você só me levou para a sua cama porque eu era um risco para o conselho e você precisava me manter calada.

Vicente travou. Os olhos dele escureceram com uma violência absoluta. A veia no pescoço dele saltou, o ódio homicida pela própria mãe ressurgindo como um incêndio. Ele deu meio passo à frente, erguendo a mão para tocar o rosto dela, a voz carregada de uma urgência desesperada.

— Lívia, isso é mentira. Eu juro pela minha alma, eu só descobri o envolvimento do meu antigo conselho naquele acidente na madrugada que estourou a guerra. Eu nunca quis usar você. Eu nunca...

— Eu sei. — Ela não recuou do toque dele, deixando a mão áspera de Vicente pousar no seu rosto. O calor dos dedos dele queimou o frio da rua na pele dela. — Eu sei que você não sabia, Vicente. O Roberto me explicou tudo no telefone. A sua mãe torceu as datas para me afastar de você. E você engoliu a isca dela.

Ela abaixou a cabeça, abriu o zíper da mochila e tirou um maço de papéis antigos. O laudo pericial, os recortes de jornal e, por fim, o comprovante de pedágio quase apagado. Ela bateu os papéis no peito de Vicente.

— Você ia queimar o seu império hoje porque achou que tinha me perdido — ela o encarou, os olhos marejados de uma intensidade crua e feroz. — Mas olha para mim, Vicente. A sua mãe não matou o meu pai no dia 12 de outubro. Esse recibo é do dia 14, na direção do Rio de Janeiro. O meu pai sobreviveu à armadilha da construtora. Ele sobreviveu o suficiente para vazar as provas e forçar a saída da Carmem da presidência.

O silêncio na sala do conselho era perturbador. Os membros do alto escalão prendiam a respiração, ouvindo a sujeira do passado ser desenterrada no centro nervoso do poder.

Vicente pegou o comprovante de pedágio. Ele leu a data. O cérebro corporativo dele, letal em processar dados, cruzou a informação com a data em que ele assumiu a empresa quinze anos atrás. O choque bateu no rosto dele. O acidente não foi um sucesso. Carmem falhou. O contador fugiu, e alguém mais terminou o serviço depois. O cenário inteiro mudou.

— Ela mentiu sobre tudo... — ele sussurrou, os olhos fixos no papel desbotado.

— Ela mentiu sobre tudo, Vicente. — Lívia agarrou os pulsos dele, ignorando as marcas da algema, puxando a atenção dele de volta para o presente. — E ela mentiu achando que eu ia fugir e que você ia cometer esse suicídio financeiro por raiva. Você quer que ela vença? Você quer assinar esses contratos e entregar a holding que você passou quinze anos limpando para um bando de engravatados, só para dar o prazer da vitória para aquela sociopata?

Vicente engoliu a seco. O olhar dele desceu do rosto sujo e determinado de Lívia para as mãos dela segurando as dele. O toque dela era a única coisa sólida num mundo que estava derretendo. Ela não era uma costureira encurralada. Ela era a mulher que desceu ao inferno, arrancou a verdade das garras do luto e voltou com os dentes cravados na mentira, apenas para impedir que ele se destruísse.

Ele sentiu o pulmão encher de ar pela primeira vez em quarenta e oito horas.

Vicente virou o corpo lentamente, colocando Lívia atrás dele em um movimento instintivo de posse e proteção. Ele olhou para a mesa de doze metros de comprimento. Olhou para os advogados asiáticos sentados com as canetas a postos, esperando os bilhões caírem do céu.

— Roberto — Vicente chamou, a voz voltando a ser a britadeira de aço que os acionistas conheciam tão bem. O advogado parou na porta da sala, aliviado, o celular na mão.

— Sim, chefe?

— Cancela a assinatura de liquidação do fundo de Singapura. Rasga essa porra e manda a delegação deles para o aeroporto. Eles não levam um prego da minha empresa hoje.

Um suspiro de alívio coletivo estourou na sala. Os conselheiros velhos se jogaram nas cadeiras, afrouxando as gravatas, o barulho de cochichos dominando o ambiente. O império estava salvo. A crise havia sido abortada.

Mas o sorriso presunçoso no rosto do chefe do conselho durou exatamente três segundos.

— No entanto... — Vicente bateu as palmas das mãos no vidro da mesa, calando o saguão inteiro num piscar de olhos. A presença letal dele assumiu o controle absoluto. — A minha decisão de retirar a família Albuquerque do controle direto da presidência e alienar o controle acionário se mantém.

O pânico voltou à sala. Roberto arregalou os olhos. Lívia franziu a testa, o coração disparando de novo.

— Vicente, o que você está dizendo? — o advogado tentou interromper, o terror voltando a estampar o rosto.

— Eu disse para rasgar o contrato de Singapura, Roberto. — Vicente não tirou os olhos dos membros do conselho, o olhar varrendo os rostos assustados que haviam encoberto os crimes da sua mãe por quinze anos. — Preparem os papéis de transferência de titularidade primária e alienação incondicional. Eu vou assinar a cessão de todos os fundos intocáveis, as patentes de tecnologia, as sedes físicas e cem por cento do meu capital votante e majoritário da Albuquerque Holding.

O murmúrio virou um caos.

— Transferir para quem, Vicente? Se os asiáticos estão fora, que fundo de investimento tem capital para absorver tudo isso agora? Você vai passar a nossa empresa para o Governo? — gritou o acionista mais antigo da mesa, roxo de indignação.

Vicente se virou devagar. A frieza mortífera deu lugar a uma intensidade que consumia o oxigênio da sala. Ele olhou para Lívia. A mulher suja de poeira, exausta, segurando uma mochila velha de lona e que havia rasgado as entranhas da cidade para não deixá-lo cair sozinho.

Ele não ia queimar o próprio império para não dar a vitória à Carmem. Ele ia fazer algo muito pior. Ele ia esfregar a derrota definitiva, eterna e irreparável na cara da matriarca, da alta sociedade e de todos os abutres daquele conselho.

— Eu não vou passar a empresa para o governo — Vicente declarou, a voz retumbando implacável pelas paredes de vidro do quinquagésimo andar. Ele levantou a mão e apontou diretamente para a mulher ao seu lado. — Os advogados de vocês têm três horas para redigir a papelada e protocolar a transferência irrestrita do império inteiro para o nome da Lívia Gomes.

O chão de mármore do prédio pareceu rachar. Um silêncio estarrecedor, pesado e doentio engoliu a sala do conselho.

Lívia paralisou, o oxigênio morrendo nos seus pulmões. Ela arregalou os olhos, os lábios entreabertos em choque absoluto. Ela não tinha pedido proteção. Não tinha pedido dinheiro. Ela queria a verdade. Mas Vicente não estava oferecendo a verdade; ele estava arrancando a coroa cravejada de sangue da própria família e enfiando à força na cabeça da filha do homem que eles mataram.


🗣️ Que reviravolta absurda! Vicente acaba de colocar Lívia no comando de tudo. Você acha que Lívia vai aceitar o império ou vai recusar o poder para limpar a própria vida? Deixe seu comentário agora!

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