Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 06
Capítulo 06: O Peso do Aço
Vincenzo tentou engolir a seco, mas o som que saiu foi um estalo patético. Ele esmagou as costas contra a pilha de paletes, o pânico dilatando as suas pupilas até quase engolirem a íris. O celular continuava no chão, a tela rachada iluminando a poeira que dançava no ar viciado do galpão.
Antonella parou a um metro dele. A respiração dela era lenta, ritmada. Enquanto Vincenzo suava em bicas, tremendo debaixo da camisa social de grife, a mente dela operava num silêncio gélido. A fórmula botânica que corria na sua corrente sanguínea mantinha as batidas do seu coração numa frequência militar. Não havia espaço para hesitação ou pena.
Ela estendeu a mão lentamente até a bancada de metal à esquerda e pegou uma chave de fenda industrial. O cabo grosso de borracha amarela e a ponta de aço escovado pesavam na palma da sua mão.
— O que você contou para o conselho, Vincenzo? — a voz dela era apenas um sussurro afiado, mas ecoou como um trovão nas paredes de zinco.
— Giulia, por favor... — as mãos dele foram para a frente do rosto, num gesto inútil de defesa. — Eu não disse nada sobre o seu passado! Eles só queriam saber onde a dona do ateliê morava. Eles disseram que era uma cobrança de dívida! Eu não sabia que iam mandar atiradores!
Num movimento rápido que o olho quase não acompanhou, Antonella cravou a chave de fenda no palete de madeira, a milímetros do pescoço de Vincenzo. O estalo da madeira quebrando fez o homem soltar um grito abafado, encolhendo os ombros. O cheiro de urina subiu no ar. Ele havia se molhado.
— Mentira — interveio Dante. Ele deu dois passos pesados para a frente, a bota esmagando a tela do celular caído. — A máfia não manda soldados para o Brasil por causa de uma dívida de comércio. Quem assinou a ordem, Vincenzo?
Vincenzo choramingou, os olhos saltando da chave de fenda cravada na madeira para a arma na cintura de Dante.
— Não foram os soldados... — a voz dele saiu como um chiado. O peito subia e descia numa hiperventilação descontrolada. — Eles não mandaram mercenários.
Antonella girou o cabo da ferramenta, arrancando uma farpa grossa da madeira. Ela encostou o aço frio na bochecha molhada dele.
— Quem eles mandaram?
— O Capo... — Vincenzo apertou os olhos, as lágrimas grossas finalmente escorrendo. — O próprio Capo desceu no Brasil. O Matteo. Ele está em Aracaju, Giulia. Ele veio buscar você pessoalmente.
Antonella recuou um passo, o impacto do nome atingindo-a como um soco no estômago. Matteo. O homem que ela traiu para poder sobreviver. O sangue nas veias dela pareceu congelar. Antes que ela pudesse processar a informação, a mão de Vincenzo deslizou sorrateiramente para trás de uma caixa de papelão rasgada, puxando um revólver calibre 38 enferrujado.
O som do cão da arma sendo puxado engoliu o galpão.

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