Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 08
Capítulo 08: A Máscara de Aracaju
O SUV blindado rasgou a Avenida Beira Mar, mas Dante não manteve a rota principal por muito tempo. Ele mergulhou o carro nas ruas estreitas e escuras do centro histórico de Aracaju, perto do Mercado Municipal. O cheiro de peixe, maresia e lixo acumulado substituiu o ar condicionado frio quando ele baixou o vidro dois dedos para jogar fora o chip do celular descartável.
Antonella mantinha os olhos fixos nos retrovisores. Os músculos das suas pernas doíam, o ácido lático cobrando a fatura da tensão. Se não fosse a dosagem alta do composto natural estabilizando as suas glândulas adrenais, ela estaria vomitando no tapete do carro. O extrato botânico era a única coisa que impedia a sua mente de quebrar sob o peso de saber que Matteo estava na mesma cidade que ela.
Dante estacionou num beco sem saída, atrás de uma fileira de galpões de fachada colonial caindo aos pedaços. Ele desligou o motor. O silêncio daquela parte da cidade era denso, quebrado apenas pelo gotejar da água de um cano estourado.
— O nome dele é Cícero — instruiu Dante, tirando a chave da ignição. — Ele vende peças de barco na frente e o que você precisar nos fundos. Não diga o seu nome. Não olhe para o que não for comprar.
Antonella apenas assentiu. Ela puxou o zíper da jaqueta de couro até o topo, escondendo a camisa manchada de suor e sujeira.
A porta de ferro pesada cedeu com um rangido quando Dante empurrou. O interior fedia a óleo de motor e tabaco barato. Atrás de um balcão de madeira riscada, um homem magro com marcas de varíola no rosto mastigava um palito de dente. Ele não pareceu surpreso ao ver a silhueta maciça do italiano bloqueando a porta.
— A loja está fechada, gringo — resmungou Cícero, a mão direita descendo lentamente para debaixo do balcão.
— Eu não vim comprar âncoras, Cícero. Preciso de ferramentas pesadas. Padrão OTAN. Limpas e com munição extra para hoje. — Dante jogou um maço grosso de notas amarradas com elástico em cima da madeira. O som abafado do dinheiro vivo fez o comerciante parar a mão.
Cícero olhou para o dinheiro, depois para Antonella, que se mantinha encostada na parede de tijolos descascados, o rosto metade na sombra. O comerciante cuspiu o palito.
— Você escolheu um dia ruim para fazer guerra na cidade — Cícero murmurou, puxando um caixote de madeira por baixo do balcão. Ele abriu a tampa. O brilho do aço negro de dois fuzis de assalto compactos refletiu na luz fraca. — Tem peixe grande na água. Uma comitiva de gringos engravatados alugou a cobertura do hotel mais caro da orla ontem à noite. Estão pagando muito bem para quem tem ouvidos bons e boca fechada.
Antonella sentiu a garganta secar. Matteo não estava apenas na cidade. Ele tinha estabelecido uma base operacional, comprando os ratos locais para farejar o rastro dela.
— Que tipo de perguntas eles estão fazendo? — a voz de Antonella cortou o ar, fria e direta, surpreendendo o próprio Dante.
Cícero entregou os carregadores cheios, os olhos estreitos avaliando a mulher.
— Estão procurando uma mulher. Italiana. Disseram que ela gosta de trabalhar com vidro. E estão pagando um milhão de reais pela cabeça de quem estiver escondendo ela.

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