Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 09
Capítulo 09: Sussurros na Elite
O som metálico do ferrolho do fuzil sendo puxado para trás fez Cícero engolir em seco. Dante apontou o cano escuro da arma diretamente para o peito do contrabandista. O cheiro de pólvora e óleo lubrificante impregnou o ar pesado do galpão.
— Seis balas — murmurou Dante, a voz soando como pedra esmagada. — É o que eu vou colocar na sua cabeça antes que você consiga pegar o telefone para tentar ganhar esse milhão, Cícero. Estamos entendidos?
O homem levantou as mãos lentamente, o suor brilhando na pele esburacada pela luz amarela. Ele concordou com a cabeça, sem ousar piscar. Antonella pegou as sacolas de lona com a munição extra e virou as costas, saindo para a rua úmida sem olhar para trás.
Dentro do SUV, o ar condicionado secou o suor na nuca dela. A caminhonete rasgou as ruas do centro, voltando em direção à orla. O painel do carro marcava três da manhã. O silêncio entre os dois era espesso, carregado de eletricidade estática.
A cabeça de Antonella trabalhava numa velocidade brutal. Ela deveria estar em pânico. A ideia de ter Matteo respirando o mesmo ar que ela, espalhando dinheiro pela cidade como quem joga milho para pombos, era um gatilho devastador. Mas o pulso dela mantinha-se regular. A química natural do composto fitoterápico de Dona Malva havia erguido um muro de contenção ao redor do seu córtex frontal, blindando o seu sistema nervoso contra o pico de cortisol. Em vez de medo, ela sentia apenas o peso frio do cálculo tático.
— Hotel mais caro da orla — disse ela, cortando o silêncio. — Só existe um com infraestrutura para hospedar uma comitiva da máfia italiana sem levantar suspeitas da Polícia Federal. O Plaza Atalaia.
Dante apertou os dedos no volante, as juntas ficando brancas.
— A cobertura tem acesso restrito. Elevador privativo, vidro à prova de balas nas janelas de frente para o mar. Se tentarmos invadir pela porta da frente, vamos ser fuzilados antes de chegar ao lobby.
— Nós não vamos invadir — Antonella abriu a sacola de lona e puxou um dos fuzis. Ela verificou o carregador com uma familiaridade que havia enterrado anos atrás. O clique metálico soou perfeito. — Se o Matteo gastou quinhentos mil euros para me achar e um milhão para quem me entregar, ele não vai ficar trancado num quarto de hotel esperando o telefone tocar. Ele é arrogante. Ele vai querer supervisionar as buscas de perto.
Dante reduziu a velocidade. Ao longe, as luzes douradas e imponentes do Plaza Atalaia começaram a surgir no horizonte da avenida, refletindo no asfalto molhado. Três SUVs pretos, idênticos ao deles, estavam estacionados de forma irregular na entrada principal, bloqueando a rampa de acesso. Homens de terno escuro fumavam nas calçadas, os olhares varrendo a rua como radares.
— Ele trouxe a guarda pretoriana inteira — resmungou Dante, parando o carro duas quadras antes, protegido pela sombra de uma fileira de coqueiros.
Antonella baixou o vidro, deixando o vento frio do mar invadir a cabine. Ela apertou os olhos, focando nos carros estacionados sob as luzes do hotel.
— Deixe eles procurarem. Nós só precisamos de um engravatado daqueles sozinho, no beco escuro certo.

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