Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 12
Capítulo 12: Aliança Inesperada
Os faróis altos das caminhonetes rasgaram a garoa fina, transformando a Rodovia dos Náufragos num palco iluminado e letal. Antes que o primeiro tiro fosse disparado, Dante socou a marcha à ré com uma brutalidade que fez a caixa de câmbio gemer. O pé dele afundou no acelerador. O SUV de três toneladas patinou, jogando lama e pedras para todos os lados, e começou a recuar às cegas pela estrada.
O som do primeiro disparo de fuzil rasgou o ar, seguido por uma tempestade de chumbo. As balas grossas bateram contra o vidro blindado do para-brisa, abrindo teias de aranha brancas bem na linha de visão de Dante. O barulho dentro da cabine era ensurdecedor, como pedras marretando um cofre de aço.
Antonella destravou o fuzil que havia comprado de Cícero. O ouvido esquerdo zumbia, mas as mãos não tremiam. O pânico de ser encurralada no escuro tentou esmagar os seus pulmões, mas esbarrou no bloqueio químico erguido pela botânica de Dona Malva. Sem o pico de cortisol para turvar a sua visão, ela baixou o vidro lateral dois centímetros, apenas o suficiente para encaixar o cano da arma e mirar no farol direito da caminhonete que se aproximava.
Antes que o dedo dela apertasse o gatilho, a noite explodiu nas laterais da pista.
Do manguezal escuro à esquerda da rodovia, uma linha de fogo cruzado irrompeu. Não eram fuzis italianos. Era o barulho sujo e rústico de escopetas calibre doze e submetralhadoras automáticas. O chumbo grosso rasgou a lataria lateral das caminhonetes de Matteo, estourando pneus e quebrando os vidros de quem estava focado em caçar o SUV.
A surpresa fez os motoristas italianos perderem o controle. Uma das caminhonetes derrapou no asfalto molhado, batendo com violência no guard-rail e bloqueando a passagem da outra.
Dante aproveitou o caos. Ele pisou no freio, girou o volante com força e puxou o freio de mão, fazendo o SUV dar um cavalo de pau perfeito de cento e oitenta graus no meio da rodovia esfumaçada.
— Quem diabos está atirando neles?! — gritou Dante, engatando a primeira marcha e arrancando de frente, deixando a emboscada para trás.
Antonella olhou pelo retrovisor quebrado. Os clarões dos tiros no mangue iluminavam silhuetas rápidas que avançavam contra os italianos atordoados. Ela soltou a respiração, um sorriso frio e afiado cortando o rosto suado.
— O Cícero — respondeu ela, a voz grave cortando o ronco do motor. — Aquele desgraçado deve ter espalhado na favela que gringos engravatados estavam andando pela orla com um milhão de reais no porta-malas.
O submundo de Aracaju não tinha vindo salvá-la. O crime local apenas não ia aceitar que uma máfia estrangeira fizesse guerra e esbanjasse dinheiro no quintal deles sem pagar pedágio. A ganância criou uma aliança cega.
— Isso nos dá tempo — Dante acelerou ainda mais, a agulha do velocímetro voltando a subir. — Mas agora a cidade inteira está acordada. A gente não pode mais se esconder. Temos que caçar o Matteo antes que ele saia do buraco.

Comentários
Postar um comentário