Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 17
Capítulo 17: O Fim do Medo
A porta de mogno não estava trancada. Com um chute violento que concentrou todo o peso do seu corpo, Antonella escancarou a madeira maciça. As dobradiças de latão gemeram. O escritório privativo da cobertura fedia a fumaça de charuto cubano e à arrogância de quem se julga intocável.
Matteo estava de pé atrás de uma imponente mesa de carvalho, o telefone pressionado contra o ouvido e um copo de uísque na outra mão. Os cabelos grisalhos estavam perfeitamente penteados para trás, mas o choque rasgou a sua expressão de predador absoluto quando ele viu a mulher que considerava morta — ou correndo em desespero — apontando um fuzil para o seu peito.
Ele soltou o telefone. O aparelho bateu na madeira com um baque surdo.
— Giulia... — o Capo sussurrou, a voz grossa arranhando a garganta. O sotaque pesado de Nápoles era inconfundível. — Você está viva.
— Antonella — corrigiu ela, a voz afiada e fria como lâmina de bisturi. Ela avançou dois passos para dentro do escritório, mantendo a mira cravada no centro da testa do italiano. Atrás dela, Dante assumiu a retaguarda, vigiando o corredor recém-pintado de sangue.
Matteo tentou sorrir, um esgar que não chegou aos olhos escuros e cruéis. Ele confiava no terror que sempre inspirou nela. No passado, apenas a presença física dele na mesma sala seria suficiente para fazer as mãos da garota tremerem e a respiração falhar. Ele esperava o pânico cego. Ele esperava submissão.
Mas o pânico não veio.
As formulações fitoterápicas de Dona Malva continuavam a trabalhar nas sinapses de Antonella como um escudo intransponível. A extração natural mantinha a amígdala cerebral sob controle estrito, bloqueando qualquer tempestade de cortisol. Em vez da menina assustada que fugiu da Itália há cinco anos, Matteo encontrou uma rocha. Uma máquina de combate gélida, totalmente imune ao seu jogo de terror psicológico.
— Você acha que pode simplesmente entrar aqui e me matar? — Matteo tentou recuperar a postura de poder, movendo a mão direita milimetricamente em direção a uma gaveta entreaberta. — Eu tenho um exército nesta cidade, ragazza. Se você puxar esse gatilho, você e o traidor do Dante não saem de Aracaju vivos.
Antonella não piscou. O dedo dela apertou o gatilho numa fração de segundo.
O estrondo do fuzil num ambiente fechado foi devastador. A bala de grosso calibre não atingiu o peito dele, mas estilhaçou o copo de uísque cristalino na mão de Matteo, arrancando a ponta do dedo mindinho do Capo antes de se alojar na parede atrás da mesa.
O mafioso urrou de dor, caindo de joelhos e apertando a mão ensanguentada contra o paletó de grife. O charuto rolou da mesa, queimando o tapete luxuoso.
— Eu já morri na Itália, Matteo — disse Antonella. A respiração dela continuava perfeitamente nivelada enquanto ela contornava a mesa lentamente. Ela parou ao lado do homem ajoelhado e encostou o cano quente do fuzil na têmpora suada dele. — Hoje, quem não volta para casa é você.

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