Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 18
Capítulo 18: Cinzas do Passado
O cheiro de carne queimada pela pólvora e sangue fresco empesteou o ar refrigerado do escritório. Matteo, o homem que outrora ditava quem vivia e quem morria nas docas de Nápoles, agora soluçava de dor, apertando o toco ensanguentado do dedo mindinho contra o peito arfante.
— Você não entende — ele cuspiu, misturando ódio e desespero enquanto olhava de soslaio para o cano do fuzil ainda roçando a sua têmpora suada. — Se o meu sangue manchar este chão, o conselho inteiro virá atrás de você. Eles vão queimar esta cidade. Vão matar a velha das ervas. Vão fuzilar o italiano vira-lata que está na porta.
Antonella não recuou um milímetro. A fúria do Capo soava como um eco distante, abafado e patético. A dosagem alta da fórmula de Dona Malva mantinha as batidas do seu coração num ritmo assustadoramente calmo. A ansiedade crônica que antes a paralisava e a fazia fugir no meio da noite fora substituída por uma clareza letal. Ela enxergava as ameaças dele pelo que realmente eram: o último estertor de um animal caindo na armadilha.
— Eles podem tentar — sussurrou Antonella, a voz desprovida de qualquer emoção, os olhos verdes brilhando frios sob a luz amarela do lustre. — Mas esta é a minha selva agora. E fantasmas não sangram.
O estampido do disparo soou seco.
Matteo caiu de lado. O império de terror que ele havia construído na mente dela durante meia década desmoronou num único instante, reduzido a carne e osso sem vida no tapete persa de um hotel em Aracaju. A poça escura começou a se espalhar rapidamente, absorvida pelos fios caros.
Na porta do escritório, Dante abaixou a pistola. Ele não disse uma palavra, apenas observou a mulher que havia acabado de decapitar a ameaça que os caçava. Havia um novo respeito, pesado e sombrio, no olhar do mercenário ferido.
Antonella baixou o fuzil. Ela pisou por cima do corpo do Capo com a mesma indiferença de quem desvia de uma poça na calçada. Abriu a gaveta que ele havia tentado alcançar e puxou um laptop militar grosso, um telefone satelital e um caderno de anotações em couro. Ali estavam os contatos, as contas e os nomes de todos os mercenários que ele havia comprado no Brasil.
— Temos menos de cinco minutos antes que os ratos dele lá embaixo percebam que o chefe parou de responder no rádio — Dante finalmente quebrou o silêncio, checando o relógio tático com a mão suja de sangue. — E as sirenes da polícia já estão ecoando na avenida.
Antonella enfiou os eletrônicos e o caderno numa bolsa de lona que encontrou encostada na mesa. Ela olhou uma última vez para as luzes noturnas de Aracaju piscando além da janela de vidro temperado do Plaza Atalaia.
— Então vamos desaparecer — respondeu ela, caminhando de volta para o corredor manchado de sangue sem olhar para trás.

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