Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 19
Capítulo 19: Descida Fria
O som das sirenes rasgava a Orla de Atalaia, multiplicando-se a cada segundo. Vermelho e azul pintavam as janelas de vidro da cobertura enquanto viaturas cercavam o Plaza Atalaia. Pelo rádio roubado do guarda morto, a estática foi substituída por vozes em italiano gritando ordens. O silêncio do Capo havia soado o alarme.
Dante cambaleou pelo corredor, o rosto cinzento sob a luz das arandelas. A perda de sangue pelo ferimento no ombro começava a cobrar a fatura, tornando os seus reflexos lentos e pesados. Antonella, no entanto, movia-se com a precisão de um relógio suíço. A dosagem da fórmula botânica de Dona Malva continuava segurando a sua amígdala cerebral com mão de ferro, impedindo que a urgência da morte iminente se transformasse em pânico. Para ela, o tempo parecia se mover mais devagar, revelando as rotas de fuga com clareza cristalina.
— A escada principal está comprometida — disse ela, empurrando Dante para a área de serviço. — Eles já devem estar subindo.
— O elevador de serviço foi travado no térreo. Não temos como descer os vinte e quatro andares sem trombar com o batalhão de choque ou com a máfia — Dante encostou na parede fria, respirando com dificuldade. — Acabou a linha, Giulia.
— Antonella. — Ela o corrigiu mais uma vez, a voz implacável. Ela não aceitaria morrer com o nome de uma presa. — E nós não vamos descer de elevador.
Antonella caminhou até as portas metálicas do elevador de serviço. Ela pegou a faca tática suja de sangue e cravou a ponta de aço no vão das portas, forçando o mecanismo. Com um gemido estridente, a trava de segurança cedeu, revelando o abismo negro do poço do elevador. Um cheiro forte de graxa, poeira e metal invadiu o corredor.
Ela sacou a lanterna tática e apontou para baixo. O teto da cabine do elevador de serviço estava estacionado exatamente dois andares abaixo deles, no vigésimo segundo, onde provavelmente havia sido parado para carregar equipamentos.
— Os cabos de contrapeso — Antonella apontou para as grossas cordas de aço besuntadas de graxa preta que desciam pela lateral do poço. — A gente escorrega até o teto da cabine. De lá, abrimos a escotilha de manutenção, entramos e destravamos os freios manuais para descer direto para o subsolo, contornando o bloqueio eletrônico.
Dante olhou para o fosso escuro. Um erro de cálculo, mãos suadas, e seria uma queda livre de cem metros até o poço de concreto.
— Com um braço só? — ele resmungou, um sorriso amargo de incredulidade se formando no rosto. — Você ficou louca.
— Não, Dante. Pela primeira vez em cinco anos, eu estou perfeitamente sã. — Antonella jogou o fuzil pelas costas, pendurando-o pela bandoleira, e estendeu a mão firme e sem tremores para o italiano ferido. — Agarre-se no cabo e use o cinto como freio. Eu vou logo acima de você. Se você escorregar, eu te seguro. Vamos!

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