Cicatrizes de Vidro: Temporada 1 – Capítulo 20
Capítulo 20: Queda Controlada
O cheiro rançoso de graxa industrial e poeira acumulada preenchia o poço escuro. Dante passou o cinto de couro grosso ao redor do cabo de aço, travando a fivela com a mão trêmula. Ele lançou um último olhar para o corredor iluminado e se deixou escorregar para a escuridão. O chiado do couro atritando violentamente contra o metal ecoou pelas paredes de concreto. Ele aterrissou com um estrondo abafado no teto da cabine, dois andares abaixo, soltando um grunhido rasgado quando o impacto reverberou pelo ombro baleado.
Antonella não perdeu um milésimo de segundo. Ela agarrou o cabo com as mãos nuas, cruzou as botas ao redor do aço besuntado e saltou. O vento frio do poço chicoteou o seu rosto. A fricção gerou um calor insuportável contra a pele das suas palmas, ameaçando rasgar a carne, mas ela não afrouxou o aperto.
A descida no escuro absoluto, suspensa sobre um abismo de concreto, faria qualquer pessoa comum hiperventilar. A mente de Antonella, contudo, operava numa calmaria quase antinatural. O composto fitoterápico continuava varrendo as toxinas do estresse da sua corrente sanguínea, segurando as rédeas do seu instinto de sobrevivência. Sem o terror paralisante do cortisol, a dor nas mãos era apenas um dado tático, uma informação que ela podia facilmente ignorar em prol do objetivo final.
Ela aterrissou suavemente ao lado de Dante no teto de metal da cabine. O italiano estava ajoelhado, ofegante, o rosto coberto por uma fina camada de suor frio e graxa.
— Escotilha de emergência — murmurou Antonella, sacando a faca tática mais uma vez. Ela localizou a fresta no painel metálico sob os seus pés e cravou a lâmina, usando-a como alavanca. Com um estalo metálico, o alçapão cedeu. Uma luz de emergência amarelada e fraca inundou o teto.
Eles desceram para dentro do elevador de serviço. O espaço era grande e forrado de compensado de madeira para proteger o espelho principal. No painel de controle aberto, a placa de circuitos piscava em vermelho, indicando que o sistema havia sido travado eletronicamente pela recepção.
Antonella jogou a bolsa com os eletrônicos de Matteo no chão e foi direto para a caixa de manutenção sob o painel de botões.
— Se você cortar a energia, os freios magnéticos soltam — Dante avisou, encostando na parede de madeira e escorregando até sentar no chão. — Nós vamos cair em queda livre. A inércia vai quebrar as nossas pernas se os freios de impacto no fosso não armarem a tempo.
Acima deles, o som abafado de portas sendo arrombadas ecoou pelo poço do elevador. Os italianos de Matteo haviam chegado à cobertura e encontrado o cadáver do Capo. Gritos em napolitano vazaram pelas frestas. Era uma questão de segundos até olharem para o poço escuro.
— Dobra os joelhos, Dante — ordenou Antonella, com a frieza de uma máquina, enquanto puxava a alavanca vermelha do quadro de energia. — Vai ser um solavanco e tanto.
A luz amarela apagou. As travas magnéticas deram um estalo monumental. O estômago de Antonella subiu à garganta quando a cabine de metal pesada despencou na escuridão, arrastando-os para as entranhas do prédio a mais de oitenta quilômetros por hora.

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